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Cultura

‘Que consigamos ser e ver o mundo de um jeito diferente’

Com 20 países no currículo em cinco anos de trajetória internacional, a especialista em dança oriental, Fernanda Paier, 29, acaba de voltar ao Brasil depois de quase um ano morando e se apresentado no Vietnã

Fernanda Paier foi surpreendida pelas belezas naturais e o povo vietnamita.
Fernanda Paier foi surpreendida pelas belezas naturais e o povo vietnamita.
Fernanda Paier foi surpreendida pelas belezas naturais e o povo vietnamita.
Fernanda Paier foi surpreendida pelas belezas naturais e o povo vietnamita.
Por Salus Loch
Foto Arquivo pessoal

Com 20 países no currículo em cinco anos de trajetória internacional, a especialista em dança oriental, Fernanda Paier, 29, acaba de voltar ao Brasil depois de quase um ano morando e se apresentado no Vietnã. Nesta entrevista, ela conta os aprendizados de sua mais recente experiência, revela como o país asiático está lidando com o novo coronavírus e confessa esperar que a pandemia mude o comportamento das pessoas. 

 

Bom Dia - Quanto tempo você ficou no Vietnã e onde se apresentou?

Fernanda Paier - Ao todo foram 11 meses e meio. Trabalhava para o grupo Sun Group, um dos maiores promotores imobiliários do Vietnã. Suas principais atividades são o desenvolvimento de resorts de férias, parques de atração e imóveis de luxo. O grupo foi fundado por quatro vietnamitas que viviam na antiga União Soviética. Eles possuem uma marca de entretenimento chamada Sun World e tem cinco parques temáticos em todo o Vietnã. Meu primeiro contrato foi de abril a outubro de 2019 no parque Sun World Ba Na Hills, a Disneylândia vietnamita. Como parte do Sun World Amusement Park Group e a mais de 20 km do centro de Da Nang, o Sun World Ba Na Hills é o resort montanhoso e o mais significativo complexo de lazer do Vietnã. É chamado de "paraíso na terra" devido ao clima e paisagem natural espetacular, oferecendo vista para o Mar do Leste e as montanhas circundantes. Sua famosa atração turística é a Ponte Dourada (Cầu Vàng), a Golden Brigde. Por causa dela, o parque ficou mundialmente famoso e, em 2018, se tornou um dos pontos turísticos mais visitados da Ásia, segundo o New York Times. No primeiro contrato participei de um dos maiores espetáculos artísticos já feitos no Vietnã: o Sunshine Carnival. Foram quase dois meses de preparação. O espetáculo teve mais de 260 artistas de 16 nacionalidades, apresentado para milhares de pessoas diariamente sob a direção e produção com coreógrafo e diretor do reality show americano ‘So You Think You Can Dance’. Entre outubro de 2019 e março deste ano, meu segundo contrato foi no parque Sun World Hon Thom Nature Park. Localizado na maior ilha vietnamita chamada Phu Quoc ao largo da costa do Camboja, o parque oferece contato com a natureza, tranqüilidade e paz. A rota do teleférico que liga a estação de entrada até o parque foi reconhecida como o maior cabo marítimo do mundo pelo Guinness World Records. O teleférico e o parque foram inaugurados em fevereiro de 2018.

 

Bom Dia - Como você classifica a experiência?

Fernanda - Desembarquei em um país que é lembrado por nós, ocidentais, pela guerra e subdesenvolvimento. Chegando lá, contudo, fui surpreendida. O inusitado se fez presente e descobri um lugar de muita beleza, transformação e paz. No Vietnã, o passado inspira o presente. Eles ostentam um contraste entre uma cultura milenar, presente em seus palácios, monumentos e templos, com construções modernas e hábitos contemporâneos. Um país que apesar de toda uma história de sofrimento e guerras, decidiu olhar pra frente e tocar a vida sem rancor no coração. Um país barulhento e bagunçado, mas colorido com um povo simples e simpático que recebe todos como um velho amigo e um contagiante e sorridente “Xin Chao”, (forma carinhosa de se dizer “Oi” em Vietnamita). Um país multicultural, formado por uma mistura de diferentes povos, mas onde a essência transmitida por todos sempre é a mesma. O Vietnã tem 90 milhões de habitantes em intensa transformação, registrando nos últimos anos o maior crescimento econômico do sudeste asiático. País comunista e pobre, sim!  Por tudo isso e por várias outras razões, posso afirmar que ir com os próprios pés para um país comunista é um aprendizado e uma maneira de abrir os olhos inigualáveis. Com certeza, viver em um país como o Vietnã foi um ciclo repleto de momentos de troca com artistas maravilhosos de várias partes do mundo, contato com a cultura local, muita re-conexão com a natureza e principalmente com a minha missão de alma.

 

Bom Dia - O que mais chamou a atenção por lá? E como o país percebe a dança/cultura?

Fernanda - Vários aspectos me chamaram a atenção. A religião, os meios de transporte, a culinária, mas dois aspectos são necessários enfatizar: língua estrangeira e costumes. Neste primeiro aspecto, o nosso país perde e muito. Todo mundo que trabalha na cadeia de turismo fala inglês e bem. Outro ponto: costumes, que eu caracterizei como minimalista e simples. O povo por lá é feliz com pouco e muito afetuoso e cordial. Sempre andam nas ruas com um sorriso no rosto e com certeza são menos ansiosos que o brasileiro hoje em dia. Vê-se menos TV nas casas e mais famílias conversando na varanda. A arte em geral no continente asiático é de alta relevância. Eles priorizam muito o entretenimento e valorizam os artistas. O mercado tende a ser mais promissor que o nosso cenário atual. A dança possui diferentes impactos e significados nos países. Ao longo destes cinco anos, viajando e trabalhando no mercado artístico internacional, pude perceber como a história de cada povo, diz muito sobre o seu consumo das artes em geral.

 

Bom Dia – Em quantos países você já trabalhou? Deles, qual você mais gostou e por quê?

Fernanda – Hoje, carrego na minha mala mais de 20 países visitados em quase cinco anos no mercado internacional. Iniciei a caminhada no final de 2013. Essa primeira experiência foi através da AISEC em um projeto social nas Ilhas Maurício, no continente africano. A oportunidade me despertou. A partir disso decidi que gostaria de levar minha arte em todos os continentes do mundo. É difícil definir qual país ou experiência eu mais gostei, acredito que todas elas possuem sua diferenciação, beleza e significado. Trabalhar e viver na Europa é totalmente diferente do que na Ásia, por exemplo. Lidar com o povo árabe é diferente do africano ou turco, e assim por diante. Costumo não caracterizar algo como bom ou ruim, melhor ou pior, pois acredito no valor de cada peculiaridade do povo e lugar. Existem lugares que ganharam meu coração, pela comida como foi o caso da Turquia e Itália, pela riqueza histórica como o Egito, pelo charme como foi à França e Suíça, pelos valores preservados na África, pelo ar cultural da Espanha, pela simplicidade e cordialidade no Vietnã. Mas nenhum é melhor ou pior que o outro. Carrego comigo um pedaço e lição de cada lugar que passei e de cada experiência que vivi e quando isso se une, compõem a minha maneira de ser e viver a vida.

 

Bom Dia – Qual seu próximo desafio profissional?

Fernanda - No cenário atual da pandemia do coronavírus, é difícil afirmar qualquer certeza, ainda mais para nós, artistas, que dependemos do fluxo de pessoas e turismo normalizado.  Tenho interesse de retornar a estes parques depois que toda essa situação amenizar, mas também ao mesmo tempo estou em busca de novos desafios, como cruzeiros e parques temáticos mundialmente famosos.

 

Bom Dia - Como foi voltar ao Brasil em meio a pandemia do Coronavírus? Como você percebe que o mundo está lidando com a doença?

Fernanda - O retorno ao Brasil aconteceu antes do previsto (de final de maio para março, em função do Coronavírus). O Vietnã, como medida preventiva, optou pelo fechamento e encerramento de todas as atividades nos parques. Desde janeiro estávamos convivendo com essa nova pandemia por lá, pois o Vietnã é vizinho da China (país de origem da pandemia). Os casos por lá chegaram mais cedo do que aqui no Brasil. Mas, o fato mais interessante é que desde o inicio sempre fomos muito bem orientados sobre as medidas de prevenção e todos os cidadãos respeitavam e seguiam o que era solicitado, concordando ou não. O Vietnã desde o principio foi muito responsável com suas decisões, como conseqüência podemos ver os resultados nos seus números atuais, tendo somente 268 casos, sem nenhuma morte ou novos casos. A viagem de volta, foi a mais longa da minha vida até então. Tive muitos voos cancelados e atrasados. Deveria chegar em dois dias; levei quatro. Cheguei até pensar que ficaria presa em algum país. A questão do cuidado dentro dos aeroportos, contudo, foi algo muito presente. Em cada desembarque era realizado medição de temperatura e a realização de um questionário sobre o aparecimento de sintomas da doença, álcool em gel disponíveis em todos lugares nos aeroportos, e todos os trabalhadores utilizando máscaras e luvas até a grande surpresa: chegada no Brasil, mais precisamente aeroporto Internacional de Guarulhos. Desembarcando em São Paulo no dia 18 de março o choque de realidades. Eu com a minha máscara, e meu álcool em gel na bolsa, parecia uma pessoa desembarcando de outro planeta e não de outro país (risos). Tive um choque muito grande em ver que não estavam sendo tomadas as medidas básicas de prevenção; não mediram minha temperatura, não falaram sobre a importância do isolamento preventivo por causa do voo internacional; não encontrei álcool em gel disponível em nenhum canto do aeroporto e nem vi os trabalhadores usando máscaras e luvas. Neste momento, me lembro de uma única frase vindo a minha cabeça: meu Deus, Brasil! Infelizmente estou vendo a nossa situação ser pior que a do Vietnã, ainda mais vindo de um país que a responsabilidade social e a empatia são muito grandes. O que me entristece é ver muitas pessoas não fazendo a sua parte como seres humanos, e não levando a sério este momento - que se utilizado de forma coerente e responsável pode ser a solução e transformação que o mundo precise pós-covid 19. Pois, é em horas como essas que muitas transformações acontecem e eu realmente espero que quando tudo isso passar (porque vai passar); você consiga ser e ver o mundo diferente.

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