Prática que teve origem no período da escravidão tem aulas gratuitas e semanais em Erechim
Considerada uma das expressões mais antigas do Brasil e reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a capoeira é mais que apenas uma luta que mistura jogo e dança. De acordo com o mestre Roberto Bahia, que dá aulas de capoeira em Erechim há quase 20 anos, a prática carrega consigo uma gama de representatividade cultural e histórica.
Sua origem remonta o período da escravidão no Brasil. Conforme Bahia, na tentativa de fugir ou se defender, os negros africanos escravizados usavam movimentos de danças que trouxeram consigo misturados à luta. “A capoeira tem origem africana porque foi desenvolvida pelos negros africanos, tendo, portanto, a essência do lugar de onde vieram, mas a forma de fazê-la, seu desenvolvimento se deu aqui no Brasil. Assim, trata-se de uma cultura afro-brasileira”, explica.
Ele ressalta ainda que a prática da luta se dava nos locais de mato baixo, raso, daí a origem do nome: “‘capoeira’ é uma palavra de origem indígena, que significa mato rasteiro. Eram nestes locais que os negros escravizados lutavam para fugir. A prática se dava dentro das senzalas nos momentos que eles tinham folga. Eles tocavam instrumentos e faziam movimentos de lutas e danças que haviam trazido da África. Isso servia também para disfarçar caso o senhor de engenho ou capitão do mato aparecesse”, esclarece.
Nascido em Porto Alegre, foi na cidade de Viamão que Roberto Bahia conheceu a capoeira. “Logo que conheci não gostei. Achava que para mim não servia. Foi quando entendi que não era só brincadeira, que a capoeira tinha uma cultura de verdade escondida por trás dela, me interessei e percebi a sua importância e o seu papel na resistência dos negros. Comecei a praticar por volta de 1986 e passei a dar aulas no ano de 1990”, relata o mestre, destacando eu se aprimorou na capoeira angola em Salvador, na Bahia. A vinda para Erechim foi no ano de 1998. Desde então, mestre Bahia dá aulas semanais da prática inclusive em escolas da região.
Trabalho para o corpo e para a mente
De acordo com Bahia, a capoeira, além de exercitar o corpo, já que envolve exercícios aeróbicos e anaeróbicos e proporciona flexibilidade, força muscular e resistência física, a prática também trabalha a mente. “Ela condiciona à disciplina, pois exige concentração e observação. Não se faz capoeira sozinho, por isso a prática ajuda até na desinibição, pois o praticante precisa se envolver, já que com ele há um grupo, no qual ele precisa interagir”, explica.
Aulas em Erechim
As aulas de capoeira são oferecidas gratuitamente todas as semanas em Erechim. Elas acontecem nas segundas, quartas e sextas-feiras na Associação de Capoeira Angola Cultura Popular (Acacp), das 19h30 às 21h. O espaço, que também é um centro cultural africano fica na estação férrea, ao lado do terminal de ônibus urbano. Conforme Bahia, qualquer pessoa pode praticar, no entanto, no caso das crianças, ele indica que o início seja a partir dos sete anos de idade. “Não há restrições, o treino é direcionado para cada idade e conforme o objetivo de cada um. Quem quiser ir apenas assistir uma aula para conhecer a prática também está convidado”, completa.