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Cultura

Erechinenses resgatam histórias do mundo e do Brasil em suas coleções de moedas

Acervos contam com peças que vão de tempos antes de Cristo, passando pelo Império até registros extraordinários de revoluções e guerras

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Denaro de prata italiano do governo Antonio II, 1402., do arquivo pessoal Gleison Wojciekowski
Peça cunhada entre 336 e 323 a.C. traz o Rei da Macedônia, Alexandre, o Grande.. Essa também é do Gl
Moeda feita de barro que circularam no Japão ao final da Segunda Guerra Mundial. Crédito: Antônio Ca
Moedas romanas com os bustos dos imperadores, crédito Laser Madrid
Moeda do Império com carimbo da República do PiratinI, que 'recarimbou' a peça afim de utilizar como
Por Salus Loch
Foto Arquivos pessoais

Desde o Império Romano a aristocracia cultivou o interesse de colecionar moedas, sem, no entanto, estudá-las. O costume romano compartilhado por imperadores, como Augusto, foi mantido por reis europeus durante a Idade Média. A coleção de Luís XIV da França, por exemplo, possibilitou, durante o Renascimento, o surgimento da numismática (ciência que tem por objetivo o estudo das moedas e das medalhas), graças à vontade dos humanistas em recuperar a cultura greco-romana, e a iniciativa de organizar as coleções reais.

Com o passar do tempo, de acordo com informações da Sociedade Numismática Brasileira/SBN (fundada em 1924), o processo foi ganhando corpo e evoluindo, aparecendo nomes como o abade Joseph Eckhel, que trabalhou na coleção imperial de Viena, capital da Áustria, e Francesco Petrarca, poeta que desenvolveu o estudo na Itália. O objetivo de Petrarca era conhecer a história de cada povo, demonstrando também como a numismática pode se tornar uma paixão contagiosa - o que se confirmou ao longo da história, com raízes e adeptos inclusive em Erechim - e que passam longe da própria aristocracia, como veremos a seguir.

Seja pela observância de técnicas ou simplesmente pelo desafio de colecionar, a relação entre cultura e numismática é algo presente, quase umbilical. Mesmo aqueles que colecionam moedas ou cédulas como um simples hobbie, sem se dedicar à pesquisa, adquirem uma boa bagagem de cultura geral. A moeda física, especialmente em tempos da febre das bitcoins e sua realidade virtual, mais do que ter valor pecuniário, revela-se veículo de mensagens, arte e, até mesmo, magias e superstições.

 

Colecionismo

De acordo com Sociedade Numismática Brasileira, é oportuno distinguir numismática de colecionismo, uma vez que enquanto o primeiro termo trata do estudo das moedas, o segundo está mais relacionado à posse delas. “A numismática como sinônimo de colecionismo está relacionada ao fato de muitos estudiosos possuírem coleções particulares, e de colecionadores, por vezes, efetuarem breves pesquisas sobre suas moedas’, explica a SBN em seu site.

Nessa linha que aproxima o estudioso do colecionador, a reportagem do Bom Dia entrou em contato com mais de uma dezenas de erechinenses apaixonados pelo assunto. Alguns, com peças que remontam a 330 anos antes de Cristo.

 

Moedas e interseção da história e da música 

É o caso de do professor de música, Gleison Wojciekowski. Ele conta que iniciou sua paixão pela numismática (e também filatelia/selos) na infância, na década de 1980, influenciado por parentes, aliado a um forte incentivo de publicações da época, que incluem revistas em quadrinhos da Disney e dos Correios.

“A arte impressa nas moedas e suas histórias foram os primeiros atrativos que me chamaram a atenção. Ficava fascinado com aqueles pequenos pedaços de metal tão antigos, com mais de um século”, pontua o musicólogo que tem, hoje, milhares de itens, entre as quais peças que indicam o domínio holandês no Brasil, de 1654; a série do quarto centenário do descobrimento do Brasil, de 1900; ou relíquias que remontam a 1402, com o denaro de prata italiano, do governo Antonio II; e, mais incrível ainda, uma moeda de 2.500 anos, que data do reinado de Alexandre, o Grande, na Macedônia, datada de 336 antes de Cristo.

Gleison lembra que quando começou a guardar as peças, especialmente as nacionais, o Brasil passava por intrincado processo inflacionário, fazendo com que diversos tipos de moedas circulassem em curto período de tempo, o que, apesar dos malefícios econômicos, gerava um excelente acervo. Dessa forma, explica, ele se tornou um “juntador”, recolhendo todas as moedas que chegassem às mãos, instigando a curiosidade acerca delas. “Já na adolescência tive contado com numismatas mais sérios, como o erechinense Aldo Sperhacke, que forneceu dicas preciosas. Nesse período pré-internet, o acesso às informações era bastante restrito, especialmente aqui no interior, mas gradativamente, através de publicações, comecei a ter acesso ao mundo da numismática, que me fascinava cada vez mais - o que foi determinante para que eu tenha optado profissionalmente pela intersecção da história e da música, unindo os mundos pelos quais era apaixonado”. De quebra, Gleison intensificou seu acesso às informações e fornecedores de peças, o que possibilitou um aprofundamento no tema, inclusive com curso “profissionalizante” em numismática pelo Instituto Federal da Paraíba.

 

 

Construindo referências

Outro garimpador de preciosidades é o empresário Antonio Carlos Carbonari Jr, presidente da Unindústria. Embora o começo tenha se dado no seio familiar, foram as viagens pelo mundo que permitiram ampliar o acervo, que inclui moedas, selos e cédulas. Resultado: mais do que peças, há o aprendizado com as aquisições e o apego a cada item, legado que ele já passa à filha, ensinando que a história é importante para saber de onde os povos vieram e para onde tendem a ir. “Quem tem história, sabe onde chegou e se tiver que voltar, sabe o caminho. Quero dar referências à minha filha, e a numismática é uma forma de fazê-lo”, resume.

Na coleção, Carbonari tem moedas brasileiras do fim do século 18, além conjuntos que registram a resistência soviética à invasão da Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial, na década de 1940; bem peças alusivas à tomada da ilha de Cuba por Fidel Castro; e algo raríssimo, moedas feitas de barro, que circularam no Japão ao final da Segunda Guerra em substituição ao metal, que havia sumido do país nipônico. Fã de motociclismo - e da Ducati -, ele também adquiriu moedas que homenageiam campeões de moto velocidade pela marca italiana.

 

De olho no Federer

Embora já tenha em sua coleção moedas de cerca de 150 países, além das brasileiras que vão do Império até o presente, o professor de tênis, Laser Madrid, segue perseguindo novos objetivos para enriquecer seus catálogos. No momento, o principal deles é arrebanhar peça alusiva ao tenista suíço Roger Federer, ícone do tênis mundial.

Diferente da maioria, porém, Laser não iniciou sua paixão pelo tema recebendo herança de algum parente; mas, sim, de um marinheiro desconhecido, que encontrou no cais de Porto Alegre. “Sempre fui aficionado pela história, especialmente das civilizações antigas. A numismática começou na minha vida cedo, entre 1984, 85, quando ganhei um ‘saquinho’ que continha diversas moedas de vários países das mãos de um marinheiro de um navio atracado no cais de Porto Alegre. A partir daquele momento, o hobbie foi ganhando corpo e a paixão pelo colecionismo aumentando cada vez mais’, revela.

Hoje, o professor de tênis conta que sua profissão tem contribuído para o aumento da coleção, em razão dos alunos que viajam o mundo e sempre trazem algo para ele na bagagem. Conforme o boa praça Laser, moedas e cédulas são uma ótima maneira de se conhecer mais sobre a história dos povos, presidentes, fauna, flora, automobilismo, aviação, Olimpíadas, enfim, dados relevantes de cada canto do planeta.

O raciocínio é corroborado por Gustavo Baratieri, que, ao receber do avô as primeiras moedas, começa a investir com mais esmero na numismática - tendo bom número de moedas do Império brasileiro e um acervo quase completo dos tempos da República.

 

 

Investimento

Na atualidade, desenvolveu-se também o conceito de colecionar moedas como forma de investimento, visto que elas costumam se valorizar com o passar dos anos e, dessa forma, podem garantir lucro aos “investidores” no momento da revenda. Mesmo a coleção de moedas recentes pode se tornar uma fonte de forte valorização. Há casos recentes que indicam valorização de até 5000% comparado ao valor de face. Guardadas as proporções, Daubi Picolli, que trabalhou muitos anos em Erechim e hoje mora em Porto Alegre, pode ser encaixado nessa lista. Ele conta que mantém moedas nacionais e internacionais que datam do fim do século 19 e início do século 20, mas está interessado em vendê-las. Outro que coleciona as moedas por hobbie e investimento, é Ademir Wenczenovicz, que, há 40 anos, guarda peças comemorativas e históricas, algumas de 1889.

 

 

Como começar

Principalmente, se você está começando a colecionar, a Sociedade Brasileira de Numismática ensina que alguns aspectos devem ser levados em conta, tais como: ano, estado de conservação e quantidade de emissão, pilares para identificar se a moeda é rara ou não. Outra informação de relevância é que as Moedas Comemorativas costumam ter emissões menores e podem ser mais valorizadas pelos colecionadores.

Todo colecionador começa “juntando” várias cédulas ou moedas, explica a SBN. No entanto, é importante definir o que pretende colecionar, organizando a coleção, antes de começar a investir dinheiro no assunto.

Conforme o site http://www.afsc.org.br/colecionar/colecionar.html, as coleções, em regra, são feitas a partir do gosto pessoal do colecionador e dos recursos que possui, o que requer paciência, carinho, método e rigor. Para o iniciante, é recomendável fixar um limite, lembrando sempre de que quando uma coleção é muito abrangente, ela tende a ser dispersiva. É imprescindível, ainda, o estudo em livros, catálogos e revistas. Ao escolher uma cédula ou moeda, o colecionador deve procurar peças em bom estado. Para aprimorar a qualidade da coleção, deve-se, sempre que possível, substituir um exemplar gasto por outro melhor. Moedas e cédulas raras são caras, salvo exceções, assim, é aconselhável permanecer atento às moedas que passam por suas mãos, pois, às vezes, podem trazer boas surpresas.  Em caso de dúvida, o colecionador deve consultar quem tenha mais experiência. É salutar o convívio com outros colecionadores, através de clubes, grupos nas redes sociais e entidades.

 

A importância dos catálogos

Os catálogos são grandes auxiliadores no estudo e classificação das peças. Eles mostram as cédulas e moedas-tipo. Às vezes, as peças são agrupadas em séries, levando em consideração similitudes nos desenhos, legendas, metal, etc. 

As moedas, geralmente, têm cunhadas as datas de emissão, o que permite que o mesmo tipo de moeda circule por vários anos. As datas de emissão podem servir de critério para montagem de uma coleção. Há colecionadores que se especializam. Escolhem um tipo de moeda, por exemplo o “Patacão” (moeda de prata, com valor facial de 960 Réis, em uso entre 1808 e 1832), e passam a estudar as particularidades dos vários cunhos, que na época eram manuais, apresentando sutis diferenças. Há também a possibilidade de se colecionar “provas” e “ensaios” - peças fabricadas nas fases de preparação das moedas, antes da entrada em produção e circulação regular. 

 

Saiba mais

Segundo a Sociedade Brasileira de Numismática, em 2018, o Brasil contava com cerca de 15 mil colecionadores de moedas.

 

Formas de expor

Não são usuais exposições de cédulas e moedas. Geralmente, os colecionadores mantém seu material acondicionado em pastas especiais, tanto as moedas como as cédulas. No caso de uma exposição, há regras próprias, divulgadas aos colecionadores com antecedência. Ultimamente, tem sido comum a montagem em folhas medindo aproximadamente 21cm x 29cm, que por sua vez são acondicionadas em sacos plásticos, para exposição em painéis (os mesmos usados para exposições de selos).

 

Ciência numismática

A preocupação principal da numismática é a moeda, enquanto peça cunhada. Cabe ao numismata analisar as moedas por diferentes métodos e buscando nelas diferentes informações. Durante esse processo, ele(a) fará uso de conhecimentos adquiridos através de outras disciplinas como a história, a cronologia, a metrologia, a simbologia, a epigrafia, a heráldica, a iconografia, a geografia, a economia, noções dos processos de metalurgia e da evolução nas artes, entre outros campos que podem ser abordados.

A numismática clássica divide-se em duas partes distintas:

- Teórica, que estuda a nomenclatura numismática e os métodos de classificação e conservação das moedas.

- Histórica, que estuda o desenvolvimento da moeda nas diferentes partes do mundo ou de uma região específica, promovendo também a classificação de suas emissões.

Nos trabalhos científicos a distinção entre as duas áreas é frequentemente sutil, já que além de distintas, as partes são complementares.

 

Fonte histórica

A numismática faz uso de diversas áreas do conhecimento para estudar as moedas, buscando identificá-las e situá-las no tempo histórico. Porém na atualidade a moeda se tornou, também, um documento histórico, sendo utilizada como “fonte” de dados para pesquisas, pois uma moeda pode facilmente fornecer dados sobre o povo que a cunhou, como sua forma de governo, língua, religião, forma como comercializavam, situação da economia, e até mesmo grau de sofisticação dos povos – através da análise do método de cunhagem – e por isso a numismática tem um papel cada vez maior no estudo da história dos povos.

 

História da moeda

Por moeda entende-se a peça metálica mandada cunhar por uma autoridade para servir de dinheiro, ou seja, para que com ela possam se executar transações comerciais e pagamentos de dívidas (ao poder de quitar uma dívida dá-se o nome de poder liberatório). As moedas metálicas surgiram por volta de 2000 a.C., mas, como não existia um padrão e nem eram certificadas, era necessário pesá-las antes das transações e verificar a autenticidade. Só por volta do século VII a.C. é que se procedeu à cunhagem das moedas. A moeda metálica foi difundida pelo mundo a partir do dracma de Atenas.

 

Numismática no Brasil

A numismática desenvolveu-se no Brasil, principalmente a partir do século XIX, seguindo em parte o modelo europeu, com papel de destaque da aristocracia. Com o fim do Império, a maior parte da produção numismática brasileira ficou restrita a museus e a trabalhos realizados por pesquisadores principalmente no eixo das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, quadro que começou a se alterar com a popularização das feiras de antiguidade e com a criação de sociedades numismáticas no país.

 

Dia do Numismata e padroeiro

No Brasil, definiu-se o dia 1º de dezembro de 1822 como Dia do Numismata em razão da coroação de D. Pedro I como Imperador. Nesse dia foi lançada a primeira moeda do novo regime: 6.400 réis em ouro, conhecida como Peça da Coroação. É a primeira genuinamente nacional, do Brasil Independente

1 de dezembro também é o dia de Santo Eloi ou Elígio, padroeiro dos Numismatas.

 

Terminologias

As partes que compõem uma moeda são: 

BORDO - delimita as duas faces da moeda, na espessura do disco, na qual pode ser impressa a serrilha. 

ORLA - beirada da face da moeda, geralmente mais elevada, para proteger o desenho principal do desgaste. 

LEGENDA - inscrição do nome do país, do soberano ou seus títulos, ou da cidade, ou ainda frases. Habitualmente é abreviada. Às vezes, ocupa o campo da moeda. 

CAMPO - espaço central da moeda, no qual aparece o motivo principal ou símbolos. 

EXERGO - espaço entre a figura principal e a orla. Frequentemente, ali se coloca a data ou valor da moeda. 

 

Estado de conservação: 

FLOR DE CUNHO (FC) - moeda perfeita, tal como foi cunhada, sem qualquer arranhão ou marca. 

SOBERBA (S) - moeda quase perfeita, com alguns arranhões ou marcas de circulação, quase invisíveis a olho nu. 

MUITO BEM CONSERVADA (MBC) - moeda com algum desgaste nas partes salientes, pequeno empastamento, riscos ou marcas superficiais. 

BEM CONSERVADA (BC) - moeda com desgaste mais pronunciado, muitos riscos e marcas, embora os desenhos principais continuem visíveis. 

REGULAR (R) - moeda muito gasta. Os desenhos mais salientes estão apagados. 

GASTA - moeda apenas identificável, com a maior parte dos desenhos apagados e legendas ilegíveis. Geralmente, seu valor comercial está limitado ao peso do metal.

 

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