Logo após as declarações fortes da presidente da Câmara de Vereadores de Erechim, Ana Oliveira, que pediu afastamento por 30 dias de suas funções, na segunda-feira (21), a tropa de choque do governo correu para afinar o discurso, para amenizar os impactos do principal fato político nesses seis meses do governo Paulo Polis e Flávio Tirello.
Versões distintas
O que disse Ana na tribuna e após, que teriam motivado o seu pedido, são versões distintas. Na tribuna falou de racismo (e isso atinge um membro do governo, com história que ocorreu nas eleições de 2016), citou a dificuldade em ser mulher na política, e que irá reavaliar sua questão política, num tom de mágoas, com fatos ainda obscuros, mas que a pressionaram a tomar essa decisão que ‘atiçou’ os meios políticos de todas as vertentes, o que aumentou a especulação dos reais motivos.
Mensagem por Whats
Os posicionamentos são diferentes, lendo o whats que a vereadora repassou para seus correligionários ainda na noite de segunda-feira (21):
Boa noite pessoal!
Hoje optei em me afastar por 30 dias, da função de Presidente do Poder Legislativo e de Vereadora; tomei a decisão após fazer uma reflexão das atividades intensas da profissão e acadêmica, que estou desempenhando, tendo uma sobrecarga das tarefas!
Resolvi finaliza-las, para retornar com um tempo maior de dedicação que a função merece e precisa.
Estamos sempre à disposição de todos para a construção dos projetos partidários!
Espero a compreensão de toda nossa equipe … abraço a todos …
Grata por tudo!
Ana
As entrelinhas são impregnadas de recados
Conversei com a vereadora Ana, ainda na tarde de segunda-feira, quando reforçou os motivos, diante da sobrecarga que vem passando, com as obrigações de ser chefe do Legislativo, de ter uma filha retornando para Erechim, onde atuará como médica, e a conclusão do seu curso de Arquitetura e Urbanismo pela URI Erechim. Deixou para trás algumas questões pessoais, e agora precisa desse tempo, para ela. E não tenho nenhum motivo para não acreditar nessa posição. Mas ao mesmo tempo, é cristalino para mim, que algo está lhe incomodando profundamente. Não tornou público, não nominou ninguém, porém as entrelinhas são impregnadas de recados.
Em 2002, outro momento de estresse
Ana foi extremante educada com seus correligionários, mas seu pronunciamento expôs as ‘vísceras’ do sistema político, que atua como um moedor de carne. Vai te trucidando aos poucos. A última vez que vi Ana, nesse nível de estresse foi em 2002, quando ainda era do PDT, numa eleição interna contra Gilmar Fiebig, na Rua João Pessoa, que mesmo sendo a segunda mais votada do partido, saiu da sigla e se filiou no MDB.
Panos quentes
Um membro do governo revela que o seu pronunciamento ser diferente da nota que emitiu para seus colegas é em função da sobrecarga e esse acúmulo acarretou um forte estresse nela: “não tem nada, não tem crise, não tem problema nenhum, mesmo que surjam especulações, a verdade é que ela precisa desses 30 dias para organizar suas questões pessoais”. Para mim, panos quentes para acalmar os ânimos internos.
Muitos foram pegos de surpresa
Quando escrevo ‘panos quentes’, até entendo a posição, pois tudo que o MDB não quer é um problema interno, nesse momento. E como falei com mais de 20 pessoas na terça-feira e na noite de segunda, muitos deles vereadores de outros partidos, foram pegos de surpresa com a decisão e ficaram sabendo através da imprensa sobre o pedido de licença de 30 dias de Ana Oliveira.
O que dizem os vereadores
Um vereador, surpreso com a decisão, afirma: “Independente de não estarmos no mesmo grupo político, ela tem feito um trabalho que merece reconhecimento”.
Outro afirma que “fui pego de surpresa. Acredito que os outros do partido também, porque ninguém até agora sabe o que aconteceu”.
“Só percebi que ontem ela estava muito distante durante a sessão e me parecia triste. Pelo menos foi a minha impressão. Mas de concreto não sei o que aconteceu”, salientou um parlamentar.
Arestas políticas para ajustar
Nessa toada, de tentar entender o que realmente aconteceu, numa mensagem de alguém com forte influência no governo, a constatação de uma possível fissura interna: “temos algumas arestas políticas para ajustar”.
“Sei que as penas voaram, recolher não vai ser fácil”
Nessa peregrinação de buscar informações mais concretas com relação ao episódio, segue mais uma colocação de membro do governo: “Muito forte esse babado, ninguém estava sabendo desse pedido, surpresa para todos. Um somatório de situações políticas e pessoais. Na verdade nada de novo, acredito ser a pressão de concorrer no ano que vem, as vias sacras pedindo para que ela concorra ou pedindo para desistir.... Sei que as penas voaram, recolher não vai ser fácil”.
Inevitável não atrelar às eleições de 2022
Nessa checagem de dados, com o discurso na Câmara de Vereadores, com o texto via whats para os colegas de partido, é inevitável não atrelar com as eleições gerais do ano que vem, já que Ana Oliveira é pré-candidata a deputada estadual, e é plausível e da política, que alguns membros de seu partido, devem apoiar nomes diferentes. Até porque tem cargos com outros parlamentares que tem mandatos, e irão ‘cobrar’ a conta. Esse é o reflexo de uma cidade ser especialista em cabos eleitorais e não construir candidaturas próprias. Ana é mais uma, que sente na pele as ‘vísceras’ do sistema político.
Oposição ouriçada
A oposição ouriçada se antecipou e largou várias teorias que motivaram o pedido, com gravação de vídeos (sem o autor, lógico), dando como certa nova eleição em Erechim, que o próximo passo seria a renúncia, e assim por diante.
30 longos dias para o governo
Os próximos 30 dias, serão longos para o governo, para quando Ana Oliveira retornar para o cargo de presidente da Câmara de Vereadores de Erechim. Ela deu o recado, e forte, que algo não está indo bem.
A história política
Para efeito de registro, Ana Oliveira ingressou na política no final de 1997 pelas mãos do então prefeito Luiz Francisco Schmidt. Foi secretária de Cidadania e Promoção Social. No ano de 2000, concorreu a vereadora e ficou em segundo lugar geral, quando o Legislativo erechinense tinha 21 vagas. Em 2004, já no MDB, concorreu à vice-prefeita em chapa pura com o ex-prefeito Antônio Dexheimer na cabeça de chapa. Foi vice-prefeita de 2009 a 2016. Nesse ano concorreu à prefeita e foi derrotada por 12 votos para Luiz Schmidt. Ficou quatro anos fora da vida pública, mas trabalhando politicamente em seu partido. Em 2020, concorreu novamente à Câmara de Vereadores, foi a mais votada de Erechim e foi eleita para presidir o Legislativo nesse ano de 2021.