O teatro surgiu há mais de 2.500 anos, com raízes nas cerimônias religiosas da Grécia Antiga. Desde então, atravessou os séculos adaptando-se às mudanças culturais, políticas e tecnológicas. Mas nunca como agora a arte cênica se viu diante de um avanço tão disruptivo: a inteligência artificial. Diante disso, a pergunta que não quer calar é: há espaço para a IA nos palcos? Ou, mais ainda: ela ameaça ou fortalece o processo criativo humano?
Para entender melhor essas questões, conversamos com Rafa Hoss, diretor e produtor de teatro natural de Erechim (RS), com diversas peças premiadas em festivais da região. A seguir, ele compartilha sua visão crítica e consciente sobre o uso da IA no fazer teatral — como ferramenta, provocação e risco.
BD: Você já usou IA em alguma etapa do seu trabalho como diretor ou dramaturgo?
Rafa Hoss:"Já introduzi. Uso para correções gramaticais, buscas de referência, comparação com outras obras e análise da estrutura narrativa."
BD: Você acredita que a IA pode ser usada como coautora ou colaboradora no processo criativo?
Rafa Hoss: "Em sala de aula, sim, com sinalização clara. Já usei como exemplo didático. Mas para palco, acho complicado — seria desonesto chamar de criação pessoal."
BD: Como você enxerga a IA dentro do teatro como linguagem?
Rafa Hoss: "Vejo como ferramenta. Mas teatro é ator, espaço e texto. O extra não pode se sobressair. Prefiro luz quente, som ao vivo. O básico bem feito."
BD: Acredita que o teatro será afetado pelas IAs tanto quanto outras áreas artísticas?
Rafa Hoss:"Não. Teatro ainda depende da relação presencial com o público. A música e o cinema sofrerão mais com isso."
BD: Quais impactos as redes sociais causam na formação de novos atores?
Rafa Hoss: "Enormes. Criam vícios. Atuar virou gritar e babar no palco porque viram isso em vídeos. A crítica virou meme. Isso empobrece nossa arte."
BD: E sobre espetáculos totalmente criados por IA? Isso ainda é teatro?
Rafa Hoss: "Espaço tem pra tudo, mas chamar isso de teatro é arriscado. Pode ser uma nova modalidade — mas não entendo como teatro."
BD: Qual o maior risco de usar IA no processo criativo?
Rafa Hoss: "Virar tudo plástico. O algoritmo não gera o lúdico. A beleza do teatro vem da trajetória única de cada criador."
BD: O uso de IA já está sendo aplicado em peças comerciais?
Rafa Hoss: "Sim, especialmente infantis com personagens famosos sem direitos. IA gera texto, atores sem DRT. Mas isso nunca teve respeito artístico."
BD: IA pode democratizar o acesso ao teatro, barateando custos?
Rafa Hoss: "Não acredito. O custo do dramaturgo é pequeno. E o público que consome teatro quer ver o cuidado humano na obra."
BD: Já viu ou usou IA na acessibilidade de espetáculos?
Rafa Hoss:"Não. O trabalho de um intérprete de Libras é insubstituível. Mas ferramentas como legendas afetivas estão avançando nesse campo."
BD:O que pode mudar no teatro com a IA nos próximos anos?
Rafa Hoss:"Na essência, nada. Corpo, espaço e texto seguem como pilares. Inventem o que quiserem em torno disso, mas que o essencial permaneça."
BD: Você usaria IA no futuro?
Rafa Hoss: "Sim, como ferramenta. Nunca para substituir alguém. Só onde não há presença humana."