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Cultura

A Sétima Arte: da invenção à transformação social

Cineasta Cassiano Zanella fala sobre a Inteligência Artificial e o que ela representa na construção do cinema

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Por Carlos Silveira
Foto Arquivo pessoal

 Desde as primeiras imagens em movimento projetadas pelos irmãos Lumière em 1895, em Paris, o cinema conquistou o mundo como uma das expressões artísticas mais potentes do século XX. Inicialmente documental — retratando cenas cotidianas como a saída de operários da fábrica ou a chegada de um trem à estação —o cinema logo evoluiu para a ficção com nomes como Georges Méliès, que introduziu efeitos especiais e narrativas fantásticas.

No Brasil, o cinema teve marcos como o Cinema Novo, o movimento marginal e, mais recentemente, o fortalecimento das produções independentes. O cinema se faz presente não apenas nas grandes telas, mas em salas comunitárias, projetos educativos e produções regionais que aproximam o povo de sua própria identidade.

 É nesse contexto que surge o trabalho de Cassiano Zanella, cineasta, publicitário e articulador cultural da região do Alto Uruguai. Sua atuação mostra como o cinema pode ir além da estética e do entretenimento — tornando-se ferramenta de conscientização, inclusão e transformação.

Em tempos de avanços tecnológicos, como a inteligência artificial aplicada ao audiovisual, Cassiano defende um cinema com alma e propósito, enraizado na vivência das pessoas e na força das histórias locais.

BD: Como você enxerga a presença da inteligência artificial na criação de roteiros cinematográficos? Ela pode ser aliada ou representa uma ameaça à criatividade humana?

 Cassiano: Para o bem e para o mal, as IAs generativas já sabem gerar protocolos de roteiro na formatação exata, isso pode ser útil se você quiser comparar ou analisar uma ideia, mas perigoso se ele for usado por estúdios em substituição ao trabalho de um roteirista. Até o momento a qualidade do que a IA gera ainda é muito genérico. E ela usa roteiros reais para ser treinada, e tudo isso sem o consentimento do autor original.

BD: Você acredita que a IA pode auxiliar na construção de personagens mais profundos ou complexos?

 Cassiano: Ela pode dar um norte, ajudar a saber onde você quer chegar ou onde não quer de jeito nenhum. Repertório ela tem, só não tem o refinamento crítico e sensível de um artista que realmente estudou e acumulou visões de mundo para poder criar com originalidade.

BD: Já experimentou alguma ferramenta baseada em IA para brainstorming de cenas ou estrutura de roteiro? Como foi essa experiência?

 Cassiano: Usei para revisão, análise ou tradução. Nesses casos ela é muito útil.

BD: Em quais etapas da produção cinematográfica a IA tem maior potencial de aplicação prática (edição, efeitos visuais, sonorização, etc.)?

 Cassiano: Ela já vem sendo utilizada no tratamento de áudio, na edição de imagem, e na geração de cenários virtuais. O temor dos animadores é que ela seja usada diretamente para criação de personagens digitais imitando traços de artistas consagrados como o que aconteceu esse ano com a trend do Studio Ghiblli.

 

BD: Acha possível que, em breve, a IA substitua parte do trabalho técnico de uma equipe de filmagem?

 Cassiano: Na publicidade já vem acontecendo. Sets inteiros já foram substituídos por IA. A publicidade sempre é a primeira que vai cortar custos, não importa o quão ético está sendo. Já o cinema tem sindicatos e regulamentação. A greve dos roteiristas e dos atores em 2023 já teve a IA na pauta.

 

BD: Como você vê o uso da IA em deepfakes, rejuvenescimento digital e reconstrução de atores falecidos?

 Cassiano: Alguns famosos já estão se protegendo juridicamente contra isso em vida. Como a Madonna por exemplo. Já outros estão querendo explorar sua imagem digital.  Tudo é uma questão de consentimento e também de um uso ético. Mas o problema de fale news usando deep fake sendo usado para desinformação é algo que devemos combater.

BD: A IA pode interferir ou colaborar na direção de atores, especialmente em ensaios, simulações ou testes de elenco virtuais?

 Cassiano: Acredito que não, pois torna a atuação muito mecânica e artificial. Mas ela pode gerar pré-visualizações do resultado final e mood boards.

BD: Você acredita que a IA pode “imitar” ou aprender o estilo de um diretor consagrado, como se fosse uma assinatura digital?

 Cassiano: Ela pode emular o estilo, mas vai apelar para os maiores clichês de cada referência sempre. A IA não tem sutileza.

BD: Com a IA cada vez mais presente, você acredita que os profissionais do cinema precisarão se requalificar tecnicamente?

 

 Cassiano: Já tem profissões de IA sendo criadas, então demanda profissional existe.

BD: Como as escolas de cinema deveriam se adaptar para preparar os futuros diretores nesse novo cenário digital?

 Cassiano: Não negar que vão existir dois cenários, o orgânico e o gerado por computadores. É como se a Matrix tivesse vencido. E a partir daí, formar cineastas e técnicos para atuar em ambas as realidades.

 

BD: Qual o limite ético da IA no cinema? Existe o risco de desumanizar a arte ao depender demais da tecnologia?

 Cassiano: Muitos filmes já estão muito digitais, com cenários virtuais, e CGI. As bilheterias revelam que as pessoas querem mais realidade e narrativas mais humanas.

BD: Você acredita que a IA pode democratizar o cinema independente ou apenas reforçar o domínio dos grandes estúdios?

 Cassiano: Já tem festivais que estão fazendo mostras de IA, é uma ferramenta legal na mão de um criador pequeno independente, mas questionável na mão de um grande estúdio.

BD: Qual foi seu primeiro contato com IA aplicada ao audiovisual? E qual sua impressão até agora?

 

 Cassiano: Usei para imaginar o poster do filme a partir das sinopses que criei. Foi divertido

BD: Se você pudesse dirigir um filme com coautoria de uma IA, qual gênero escolheria e por quê?

 Cassiano: Creio que sci-fi já que é um gênero caro que exige muita pós-produção

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