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Cultura

Historiadores defendem preservação da memória e patrimônio de Erechim

Enori Chiaparini e Neusa Cidade Garcez falam sobre a importância do Arquivo Histórico Municipal Juarez Miguel Illa Font e da educação patrimonial como instrumentos de identidade e cidadania

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Enori Chiaparini e Neusa Cidade Garcez.jpeg
Marcos do colonizador, o castelinho e a casa, uma das obras de Neusa Cidade Garcez referente a histó
Por Gabriela de Freitas
Foto Gabriela de Freitas

Erechim se prepara para sediar, entre 16 e 22 de agosto, a Semana Municipal do Patrimônio 2025. Nos dias 16 e 17, a programação contará com atividades culturais selecionadas por meio de Chamamento Público, promovido pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Economia Criativa.

As inscrições foram realizadas até 12 de agosto, por formulário eletrônico, puderam participar pessoas físicas, jurídicas, entidades e empreendedores com propostas como exposições, oficinas e apresentações sobre o patrimônio cultural. A seleção foi feita pelo Departamento de Cultura, com base em critérios como relevância cultural, criatividade e viabilidade.

Entre os destaques da programação, está a participação de Enori Chiaparini e Neusa Cidade Garcez no “Café com Leitura”, no dia 16 de agosto, evento promovido pela Academia Erechinense de Letras, que marcará a abertura das atividades e reunirá convidados para uma roda de conversa sobre memória, identidade e preservação do patrimônio.

Trajetórias dedicadas à história

Com décadas de atuação voltada à preservação da memória e do patrimônio cultural de Erechim, os historiadores Enori Chiaparini e Neusa Cidade Garcez compartilham experiências, reflexões e desafios enfrentados na defesa da história local. Ambos construíram suas carreiras a partir de pesquisas aprofundadas, coleta de documentos e entrevistas com pioneiros, sempre com base em fontes primárias.
 

Neusa lembra que o interesse pela cidade começou ainda na infância, em passeios de domingo com a família. “Desde pequena, ficava fascinada pela cidade, pelas novidades e pelo jeito como as pessoas se vestiam”, relata. Ao longo de sua trajetória, coordenou projetos como “Remexendo nos sobrados e porões”, recolhendo e catalogando peças históricas, além de dirigir a 3ª Região Museológica do Rio Grande do Sul por 15 anos.
 

Enori iniciou sua ligação com a área ao participar, nos anos 1980, de um curso oferecido pelo Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Foi selecionado para representar Erechim e, ao retornar, iniciou a organização do acervo que resultaria na estruturação do Arquivo Histórico Municipal.

Fundação e importância do Arquivo Histórico

Criado por lei em 1980, o Arquivo Histórico Municipal Juarez Miguel Illa Font de Erechim completará 45 anos em 2025. Enori foi responsável pela montagem e organização do espaço, enfrentando dificuldades estruturais e a falta de recursos. “Foi a maior luta da minha vida, mas me entreguei de corpo e alma”, recorda.

O acervo foi estruturado em três áreas principais: documental, fotográfica e de história oral. Hoje, são mais de 7 mil fotografias digitalizadas, além de entrevistas gravadas com moradores que chegaram à cidade ainda no início do século XX. O material é aberto ao público e utilizado por pesquisadores e estudantes.

 

Patrimônio, identidade e pertencimento

Para os dois historiadores, preservar o patrimônio vai além da conservação física de prédios e objetos: é um ato de construção de identidade e fortalecimento da cidadania. “Havendo identidade, há autoestima e senso de pertencimento. Isso ajuda a exercitar a cidadania, porque você gosta e participa da sua cidade”, afirma Enori.
 

Neusa reforça que a história local carrega marcas culturais trazidas pelos imigrantes, como o hábito de guardar e conservar. No entanto, ambos alertam para a perda de referências urbanas devido ao crescimento acelerado e à falta de políticas eficazes de preservação.

Desafios e pressões econômicas

Os entrevistados apontam que a preservação enfrenta obstáculos como a burocracia, a falta de conscientização e a pressão do mercado imobiliário. Há casos de prédios históricos demolidos para dar lugar a novas construções, mesmo com possibilidade de restauração.

Também destacam a importância de integrar o antigo ao novo, como acontece em cidades europeias. “Não se trata de impedir o crescimento, mas de associar o novo ao antigo, mantendo a memória viva”, defende Enori.

Educação patrimonial e novas gerações

Para os historiadores, a formação de uma consciência coletiva sobre patrimônio deve começar cedo, ainda na educação básica. “A Semana do Patrimônio precisa se transformar em 365 dias de trabalho permanente”, diz Enori. Neusa cita experiências em escolas, como trabalhos de desenho, teatro e visitas guiadas, que despertam o interesse das crianças. “Essas vivências plantam sementes. Essas crianças serão cidadãos diferentes”, acredita.

Histórias e episódios marcantes

Ao longo de suas carreiras, os dois colecionam relatos e experiências de campo, desde visitas a acervos particulares até descobertas arqueológicas na região. Neusa lembra de peças raras, como tamancos holandeses e urnas funerárias, e lamenta casos de desaparecimento de objetos históricos.

Enori relata sobre as entrevistas com moradores centenários e a recuperação de documentos que estavam prestes a serem descartados. “Muito do que temos hoje só existe porque houve resistência e intervenção na hora certa”, afirma.

Futuro da preservação

Apesar das dificuldades, ambos mantêm a esperança na nova geração e no papel das famílias e escolas na valorização da história. “A educação pode sedimentar uma nação. Se as crianças forem educadas para compreender e valorizar o patrimônio, teremos um futuro diferente”, conclui Neusa.

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