A Academia Erechinense de Letras (AEL) promoveu, na tarde de sábado (16), mais uma edição do Café com Leitura, atividade que vem se consolidando como um espaço de diálogo cultural aberto à população. Realizado na praça Jayme Lago, o encontro integrou a programação da Semana do Patrimônio e teve como foco a preservação da memória coletiva e do legado histórico de Erechim.
A presidente da AEL, Zeni Bearzi, fez a abertura da atividade e apresentou os participantes, dando sequência à condução da roda de conversa por Mariaelise Ferreira, mediadora do encontro.
Trajetória da pesquisadora Neusa Cidade Garcez
Pesquisadora, historiadora e autora de diversas obras, Neusa Cidade Garcez relembrou momentos de sua caminhada dedicada à defesa do patrimônio. Responsável por iniciativas como “Remexendo nos Sobrados e Porões” e pela direção da 3ª Região Museológica do RS por mais de 15 anos, a professora é considerada referência no assunto.
Em sua fala, destacou o valor das memórias cotidianas. “Patrimônio não são apenas grandes construções ou feitos históricos. É também o guarda-chuva, o muro, a bengala artesanal de um senhor centenário que recebi certa vez no interior – objetos que carregam histórias, sofrimentos e vivências”, afirmou.
Ela também mencionou o livro “Marcos do colonizador: o ‘Castelinho’ e a Casa”, no qual registra a trajetória da primeira escola de Erechim, construída pelo professor Carlos Mantovani e atualmente em ruínas.
“Sonhei em conservar aquela casa, especialmente os lambrequins originais, pois neles estava a marca do trabalho humano”, relatou.
Neusa e sua família moraram por mais de 15 anos na edificação que abrigou a primeira escola do município. Durante esse período, empenharam-se na sua manutenção, realizando consertos, pinturas e zelando pela estrutura para preservar seu valor histórico.
No encontro, ela enfatizou a relevância das primeiras instituições de ensino de Erechim, em especial a escola erguida por Mantovani, considerada um dos marcos fundadores da educação local.
“A primeira escola de Erechim foi um espaço fundamental para a formação cultural e social da cidade. Hoje, infelizmente, encontra-se em ruínas, e isso mostra como ainda precisamos avançar no cuidado com nosso patrimônio”, observou.
Para ela, conservar o patrimônio também significa reconhecer o valor de objetos simples que guardam lembranças do dia a dia: “É preciso transmitir às novas gerações, em casa e na escola, para que a memória coletiva permaneça viva”, destacou.
Arquivo Histórico e o olhar de Enori Chiaparini
Reconhecido pela criação e organização do Arquivo Histórico Municipal Joarez Miguel Illa Font, que coordenou por mais de 20 anos, o pesquisador Enori Chiaparini compartilhou recordações do processo de salvaguarda de documentos da cidade.
“Nosso objetivo era resgatar 60 anos de documentação que estava prestes a ser descartada. Lembro-me de quando cheguei e vi parte desse material já em cima de um caminhão de lixo – relatórios de prefeitos, correspondências expedidas e recebidas. Com esforço, conseguimos preservar e hoje esse acervo é tratado com zelo”, contou.
O conjunto documental, que hoje reúne jornais, atas, fotografias e registros oficiais, tornou-se fonte de referência para estudiosos e cidadãos interessados em compreender as origens do município.
Durante sua fala, Chiaparini apresentou fotografias de prédios, residências e monumentos antigos de Erechim, muitos deles em estilos arquitetônicos como o Art Déco, marcante nas primeiras décadas do século XX. A cada imagem, narrava a história dos espaços e sua relação com a vida comunitária.
Entre as construções lembradas estavam a antiga Catedral São José, demolida para dar lugar à atual, e a primeira escola da cidade, hoje deteriorada. Para o pesquisador, esses exemplos evidenciam como a ausência de políticas consistentes de preservação compromete a memória coletiva.
“Na época, conseguimos salvar documentos que já estavam destinados ao lixo. Mas muitos dos nossos prédios não tiveram a mesma sorte. A antiga Catedral São José, por exemplo, foi destruída, e a primeira escola está abandonada. Isso representa perdas irreparáveis para a identidade da cidade”, lamentou.
Em tom de reflexão, Enori definiu o encontro como um ato de cidadania e resistência cultural: “Esta foi uma tarde de reflexão cívica, de ânsia de exercer a cidadania. Precisamos ter força para enfrentar o fantasma do esquecimento e continuar dando passos melhores na preservação da nossa memória, com fogo na alma e sangue no coração.”
Palavra, história e identidade
Ao final da roda de conversa, foram feitos agradecimentos a todos os presentes pelo apoio à iniciativa e ao debate sobre a memória da cidade. Na sequência, Mariaelise ressaltou a importância de valorizar as memórias coletivas: “Quando uma palavra deixa de ser dita, ela morre. Quando uma história deixa de ser contada e é esquecida, ela também morre. Perder o nosso patrimônio cultural significa perder parte da nossa memória e da nossa identidade”, afirmou.