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Cultura

Café com Leitura integra Semana do Patrimônio em Erechim

Evento da Academia Erechinense de Letras reuniu a comunidade na praça Jayme Lago em uma tarde de reflexão sobre identidade, história e preservação

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Café com Leitura integra Semana do Patrimônio em Erechim.jpeg
Por Gabriela de Freitas
Foto Gabriela de Freitas

A Academia Erechinense de Letras (AEL) promoveu, na tarde de sábado (16), mais uma edição do Café com Leitura, atividade que vem se consolidando como um espaço de diálogo cultural aberto à população. Realizado na praça Jayme Lago, o encontro integrou a programação da Semana do Patrimônio e teve como foco a preservação da memória coletiva e do legado histórico de Erechim.

A presidente da AEL, Zeni Bearzi, fez a abertura da atividade e apresentou os participantes, dando sequência à condução da roda de conversa por Mariaelise Ferreira, mediadora do encontro.

Trajetória da pesquisadora Neusa Cidade Garcez

Pesquisadora, historiadora e autora de diversas obras, Neusa Cidade Garcez relembrou momentos de sua caminhada dedicada à defesa do patrimônio. Responsável por iniciativas como “Remexendo nos Sobrados e Porões” e pela direção da 3ª Região Museológica do RS por mais de 15 anos, a professora é considerada referência no assunto.

Em sua fala, destacou o valor das memórias cotidianas. “Patrimônio não são apenas grandes construções ou feitos históricos. É também o guarda-chuva, o muro, a bengala artesanal de um senhor centenário que recebi certa vez no interior – objetos que carregam histórias, sofrimentos e vivências”, afirmou.

Ela também mencionou o livro “Marcos do colonizador: o ‘Castelinho’ e a Casa”, no qual registra a trajetória da primeira escola de Erechim, construída pelo professor Carlos Mantovani e atualmente em ruínas.

“Sonhei em conservar aquela casa, especialmente os lambrequins originais, pois neles estava a marca do trabalho humano”, relatou.

Neusa e sua família moraram por mais de 15 anos na edificação que abrigou a primeira escola do município. Durante esse período, empenharam-se na sua manutenção, realizando consertos, pinturas e zelando pela estrutura para preservar seu valor histórico.

No encontro, ela enfatizou a relevância das primeiras instituições de ensino de Erechim, em especial a escola erguida por Mantovani, considerada um dos marcos fundadores da educação local.

“A primeira escola de Erechim foi um espaço fundamental para a formação cultural e social da cidade. Hoje, infelizmente, encontra-se em ruínas, e isso mostra como ainda precisamos avançar no cuidado com nosso patrimônio”, observou.

Para ela, conservar o patrimônio também significa reconhecer o valor de objetos simples que guardam lembranças do dia a dia: “É preciso transmitir às novas gerações, em casa e na escola, para que a memória coletiva permaneça viva”, destacou.

Arquivo Histórico e o olhar de Enori Chiaparini

Reconhecido pela criação e organização do Arquivo Histórico Municipal Joarez Miguel Illa Font, que coordenou por mais de 20 anos, o pesquisador Enori Chiaparini compartilhou recordações do processo de salvaguarda de documentos da cidade.
“Nosso objetivo era resgatar 60 anos de documentação que estava prestes a ser descartada. Lembro-me de quando cheguei e vi parte desse material já em cima de um caminhão de lixo – relatórios de prefeitos, correspondências expedidas e recebidas. Com esforço, conseguimos preservar e hoje esse acervo é tratado com zelo”, contou.

O conjunto documental, que hoje reúne jornais, atas, fotografias e registros oficiais, tornou-se fonte de referência para estudiosos e cidadãos interessados em compreender as origens do município.

Durante sua fala, Chiaparini apresentou fotografias de prédios, residências e monumentos antigos de Erechim, muitos deles em estilos arquitetônicos como o Art Déco, marcante nas primeiras décadas do século XX. A cada imagem, narrava a história dos espaços e sua relação com a vida comunitária.

Entre as construções lembradas estavam a antiga Catedral São José, demolida para dar lugar à atual, e a primeira escola da cidade, hoje deteriorada. Para o pesquisador, esses exemplos evidenciam como a ausência de políticas consistentes de preservação compromete a memória coletiva.

“Na época, conseguimos salvar documentos que já estavam destinados ao lixo. Mas muitos dos nossos prédios não tiveram a mesma sorte. A antiga Catedral São José, por exemplo, foi destruída, e a primeira escola está abandonada. Isso representa perdas irreparáveis para a identidade da cidade”, lamentou.

Em tom de reflexão, Enori definiu o encontro como um ato de cidadania e resistência cultural: “Esta foi uma tarde de reflexão cívica, de ânsia de exercer a cidadania. Precisamos ter força para enfrentar o fantasma do esquecimento e continuar dando passos melhores na preservação da nossa memória, com fogo na alma e sangue no coração.”

Palavra, história e identidade

Ao final da roda de conversa, foram feitos agradecimentos a todos os presentes pelo apoio à iniciativa e ao debate sobre a memória da cidade. Na sequência, Mariaelise ressaltou a importância de valorizar as memórias coletivas: “Quando uma palavra deixa de ser dita, ela morre. Quando uma história deixa de ser contada e é esquecida, ela também morre. Perder o nosso patrimônio cultural significa perder parte da nossa memória e da nossa identidade”, afirmou.

 

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