Tendo a natureza como principal inspiração e a cultura polonesa como base, Regina Kviatkovski e Tereza Edwiges Koza perpetuam histórias e memórias através de seus livros
O ar puro do campo, as cores vivas das flores, o canto dos pássaros, os sons misturados dos inúmeros animais: a natureza. Os vários aspectos que permeiam o meio rural servem de refúgio para duas descendentes de poloneses que fazem do interior da pequena Centenário, localizada no Alto Uruguai gaúcho, um recanto de inspiração.
Uma delas é Tereza Edwiges Koza. Nascida e crescida na cidadezinha de pouco mais três mil habitantes, ela acabou de lançar seu primeiro livro “Desventuras do Cotidiano”. A vida ligada ao campo e à agropecuária desde seu nascimento lhe garantiram grande apreço pela natureza e pela vida. Em sua primeira obra ela narra a vida de desventuras de uma mulher que, assim como ela, nasceu, cresceu e viveu no interior. O livro foi lançado pela Editora São Cristóvão, de Erechim, em setembro deste ano e marca seu primeiro projeto ao se arriscar na brincadeira com as letras.
Além dela, outra escritora – Regina Kviatkovski - faz história e histórias. História por se lançar na literatura mesmo diante de tantos percalços e desafios que a vida lhe impôs, a começar pelo pouco estudo e pelo fato de morar em uma cidade pequena do interior gaúcho. Histórias porque através de suas vivências em meio a natureza e das lembranças dos contos de sua mãe, deu asas à imaginação e lançou recentemente, seu oitavo livro, que em suas páginas narra as aventuras de uma empregada doméstica que, apesar de todas as dificuldades que o mundo lhe traz, sempre é positiva, alegre e, por isso, crê que um dia ainda será recompensada.
Antes desse, outras sete obras já foram lançadas com textos, contos e poesias contando situações vivenciadas, sempre com ênfase na natureza - sua maior inspiração -, junto com as histórias que ouvia na infância, contadas pela mãe. Foi ela, a matriarca da família, quem semeou o amor pela leitura e escrita. Moradora de uma casa azul, típica de poloneses, ela vive com seus irmãos, Maria e Eduardo no interior de Centenário.
Hoje com 70 anos, a escritora estudou somente até a 6ª série e remeteu seus manuscritos ao editor em singelas folhas de caderno há pouco mais de uma década, quando ela conheceu Isaias Batista Ribeiro, que trabalha em uma editora e gráfica. Ele conta que a situação de Regina é algo raro nos dias de hoje. “Ela estava com seus textos escritos em papéis e não digitados, como normalmente acontece. Além de digitar o material, também foi necessário fazer a revisão. Mas estamos falando de uma pessoa extremamente humilde, simpática, que conquistou minha amizade”, diz.
Maria e Eduardo são os maiores fãs. O orgulho do irmão ao ver Regina realizando seu desejo, o emociona. Com lágrimas nos olhos ele diz que nunca viu a irmã escrever, mas que adora escutar quando ela lê algum de seus textos e até mesmo trechos de seus livros. “Ela escreve quando saio à tarde e durante a noite quando estamos dormindo. Deve ser porque ela gosta do silêncio. Isso é um poder divino. Deus lhe deu o dom de colocar nas palavras histórias emocionantes, que nos embalam em romances, sempre retratando as coisas mais divinas, como a natureza, a agricultura, os animais”, diz.
Enxada substituída por papéis e canetas
A paixão pelas letras, histórias reais ou fictícias não tem barreiras. Nem mesmo a distância impede que essa sintonia aconteça, até mesmo com pessoas que possuem pouca escolaridade e que, sozinhas, aprenderam a ligar as palavras, formando frases e, tornando sua imaginação algo real. É esse sentimento que estimula a sede de Regina por histórias diferentes.
Seu prazer pela escrita a levou a escrever em seu caderno contos, poesias e romances. Muitos deles perderam-se ao confiar seus manuscritos a pessoas desconhecidas, mas em 2005 teve seu primeiro livro, Tesouro Inútil, publicado e lançado na Feira do Livro, em Erechim. Desde então, não parou mais. No final de 2013, teve seu 7º livro publicado, Amor Infinito e, recentemente, a 8ª obra, Luzes de Natal. Regina dedicou sua primeira obra a sua mãe, que segundo ela, foi quem semeou o prazer pela leitura. Ela lhe contava histórias, muitas delas reais e outras criadas. Também lhe ajudou a ler e escrever em polonês. E hoje, Regina junta o que recorda da infância, com situações vivenciadas ou criadas, sempre tendo destaque a natureza.
As referências polonesas
Centenário é um município ligado à cultura polonesa visto a grande concentração de descendentes. A observação é feita por Luciana Maria Zvierzykoski, moradora da cidade, graduada em Administração e Geografia, além de sua formação na Escola de Líderes Poloneses, da Polônia. Ela destaca ainda a presença de descendentes de outras culturas, que é relevante no local e promove uma integração natural. “A escrita é uma das manifestações que ocorre no município. Este mesmo sendo um fato isolado, tem adquirido proporções importantes quando mencionada a quantidade de publicações. A paixão pela escrita é uma forma de manifestação, das autoras, do seu carinho e apreço pela cultura”, pontua.
Ela ressalta que as histórias narradas pelos familiares são inspiração que trazem traços da cultura recheadas de muita imaginação, o que é necessário para aguçar a leitura. Neste sentido, “a escrita torna-se uma forma de registrar e perpetuar a memória”.
Ela destaca ainda que as manifestações culturais da descendência polonesa também se manifestam em momentos no ano, a exemplo da devoção a santos poloneses, orações e cantos natalinos, benção dos alimentos no Sábado Santo e a Festa do Pierogi que atrai pessoas da região, oferecendo pratos típicos. “A língua polonesa é possível de ser ouvida no cumprimento e na conversa entre as pessoas que de forma carinhosa preservam a identidade polonesa”, ressalta.
Também descendente, Luciana afirma que a Polônia está de braços abertos para o mundo e tem muito para compartilhar em cultura, conhecimento, turismo, economia, política e outras manifestações que o pós modernismo trouxe ao país. “A Polônia tem uma história triste, em tons cinza, mas seguramente pode-se afirmar que está reescrevendo em tons de uma intensa primavera onde a vibração positiva e de criatividade encantam os estrangeiros. Orgulhamo-nos de sermos descendentes de poloneses”, completa.