Celebrado em 21 de janeiro, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa chama a atenção para um tema sensível e ainda presente na sociedade brasileira: o desrespeito às diferentes manifestações de fé.
A data convida à reflexão sobre a convivência plural, o respeito às crenças e o direito fundamental à liberdade religiosa, garantido pela Constituição Federal.
O Brasil é reconhecido mundialmente por sua diversidade religiosa. Católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, candomblecistas, judeus, muçulmanos, budistas e pessoas sem religião convivem em um mesmo território, construindo um mosaico cultural e espiritual único.
No entanto, essa diversidade nem sempre é acompanhada de tolerância. Casos de preconceito, discriminação e violência simbólica ou física ainda são registrados, sobretudo contra religiões de matriz africana.
A data foi instituída em memória de Mãe Gilda, ialorixá do terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador, que morreu em 2000 após sofrer perseguições e ataques motivados por intolerância religiosa. O episódio tornou-se um símbolo da luta pelo respeito às religiões afro-brasileiras e pela valorização da liberdade de culto.
De acordo com dados de órgãos de direitos humanos, denúncias de intolerância religiosa cresceram nos últimos anos no país. As agressões vão desde discursos de ódio e ataques virtuais até depredações de templos e constrangimentos públicos. Especialistas apontam que a falta de informação e o preconceito histórico são fatores que alimentam esse tipo de violência.
O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa tem como principal objetivo promover o diálogo, a educação e a conscientização. Mais do que uma data simbólica, ela reforça a necessidade de políticas públicas, ações educativas e iniciativas comunitárias que estimulem o respeito mútuo desde a infância, especialmente no ambiente escolar.
Elìsa Pil'õtto
Para a rezadeira e licenciada em História, Elsa Pil'õtto, é inegável que, mesmo em pleno século XXI, o racismo e, por extensão, o racismo religioso persistem. “Encontram solo fértil em discursos cotidianos, em espaços e em atitudes que minam a coexistência pacífica. Essa intolerância manifesta-se em olhares, palavras e, lamentavelmente, em atos de violência que ferem a dignidade humana e a pluralidade de crenças que deveria ser o alicerce de nossa nação”.
Essa triste realidade, garante ela, reflete uma sociedade historicamente moldada por laços coloniais. “A fé e a cultura do colonizador foram impostas, sistematicamente deslegitimando e apagando as ricas manifestações espirituais dos povos originários e das populações africanas escravizadas. As cicatrizes desse processo de apagamento cultural e religioso ainda ecoam, dificultando o pleno reconhecimento de suas identidades e contribuições.
Como nos ensina o Professor Sidnei Nogueira em sua obra "Intolerância Religiosa", é fundamental compreender que a perseguição às religiões de matriz africana não se configura como um evento isolado, mas sim como a intrínseca perpetuação de um projeto colonial que visava aniquilar a cosmovisão e a identidade dos povos escravizados, alicerçando um racismo estrutural que se manifesta, ainda hoje, na desqualificação e violência contra suas práticas ancestrais”, pontua.
“Neste dia, somos convocados a combater ativamente toda forma de discriminação religiosa. Isso exige mais do que a mera tolerância; requer um engajamento proativo na promoção do respeito, na desconstrução de preconceitos arraigados e na defesa intransigente do direito de cada indivíduo professar sua fé ou seguir sua espiritualidade ou mesmo não tê-la com total liberdade e segurança. É crucial que educadores, líderes comunitários, gestores públicos e cada cidadão se tornem agentes dessa transformação”, finaliza Elisa.