Entre cafés e risadas, a conversa sobre música segue sem pressa. O encontro reúne trajetórias que começaram distantes — geograficamente e virtualmente — e que, aos poucos, se aproximaram pelo mesmo caminho: o blues.
Da cidade de Nova Friburgo (RJ), o músico e professor Pedro Friedrich cresceu cercado por discos de vinil. Em casa, nomes como Led Zeppelin, The Beatles, Pink Floyd e Jimi Hendrix não eram apenas trilha sonora — eram ponto de partida. “Desde quando eu me entendo por gente, já escutava muito som em casa”, conta.
A curiosidade virou prática ainda na adolescência, quando ganhou a primeira guitarra e começou a aprender sozinho. Com o tempo, vieram os estudos, as aulas e uma dedicação que nunca mais se interrompeu. “Desde essa época que comecei a tocar, nunca mais parei”, resume.
O blues entrou nesse percurso como descoberta — e permaneceu. Pedro fala do gênero como quem costura história e sentimento. Explica que suas raízes estão nas canções dos escravizados africanos, atravessando o tempo até ganhar força nas cidades e influenciar praticamente tudo o que veio depois. “Tudo que a gente escuta hoje veio dali”, diz, ao citar referências como Robert Johnson, Muddy Waters e B.B. King.
Mas a história que trouxe Pedro até Erechim começa bem depois — e passa pela internet. Durante a pandemia, com os palcos vazios, ele intensificou as aulas online. Foi nesse período que Diego Zilio e Alan Bresolin encontraram seus vídeos.
Diego lembra com precisão o primeiro impacto: “Eu olhei ele tocando e pensei: ‘caramba, isso é inacreditável’”. Logo em seguida, veio a decisão de começar as aulas. Nem tudo foi simples no início. “Eu fui meio teimoso, não queria fazer o básico”, admite, rindo. Meses depois, a mudança já era perceptível. “Quando começou a sair som, aí foi indo… hoje é uma coisa muito mais para mim do que para qualquer outra pessoa”.
Alan também chegou pelo algoritmo. Ao ver a técnica do Delta Blues — com baixo, melodia e ritmo acontecendo ao mesmo tempo —, ficou intrigado. “Sem enxergar os dedos do cara, parecia impossível”, relembra. Ainda assim, começou a estudar e manteve uma rotina intensa por anos. Hoje, com a vida reorganizada, a música ocupa outro espaço, mas não menor. “A gente não para de tocar. A gente só adapta à rotina”.
O que era aula virou troca. E a troca virou amizade. “Eu não vejo mais eles só como alunos”, diz Pedro. “Virou uma amizade muito bacana”.
O encontro presencial, em Erechim, trouxe uma camada nova para essa relação. Entre shows e um workshop, houve também o momento em que a teoria deu lugar ao improviso. Alan lembra da cena: “No final, foi como ligar uma tomada. Um começou, o outro foi entrando… quando viu, tava todo mundo tocando junto”.
Nem tudo, porém, começou solto. Pedro percebeu a tensão dos alunos ao tocar diante dele. “O pior para um músico é tocar para outro músico”, comenta. Para quebrar o gelo, puxou uma roda no chão, sem formalidade. “Aí soltou”, resume.
A música, ali, parecia funcionar como linguagem comum. “Todas as coisas boas que vieram na minha vida foram através da música”, reflete Pedro. “Eu conheci eles, conheci minha esposa … a música conecta”.
Entre uma história e outra, surgem também detalhes do blues que ajudam a entender sua essência. Instrumentos improvisados, como o washboard — uma tábua de lavar roupa transformada em percussão —, e a dualidade do gênero, que transita entre dor e celebração. “As pessoas associam o blues à tristeza, mas tem também o lado da festa, da esperança”, explica.
Na mesa, o clima é leve. Falam de churrasco, de chimarrão e até de futuras visitas ao Rio. Quando o assunto volta à música, o tom muda — não mais sério, mas mais íntimo.
Diego descreve o momento de tocar como um tipo de pausa: “Às vezes tu tem tempo, mas não tem cabeça. Aí precisa parar, respirar… é quase uma meditação”. Alan fala de pertencimento: “A música nunca me abandonou”.
Pedro amplia a ideia: “Quando você aprende um instrumento, você tá aprendendo sobre você mesmo”. E vai além: “O mais difícil é materializar o som que tá aqui dentro”.
No fim, a conversa toca em algo que atravessa todos ali: o motivo de continuar. Para Pedro, isso passa por um esforço constante de reconexão. “Eu tento lembrar do momento em que ganhei minha primeira guitarra. Aquela vontade, aquela paixão… é isso que me faz tocar até hoje”.
Antes de ir embora, ainda houve tempo para mais um show, reunindo músicos locais. Uma despedida que parece mais um intervalo do que um ponto final.
Porque, como ficou claro naquela tarde, a música — especialmente o blues — não segue um roteiro. Ela encontra caminhos. E, vez ou outra, faz com que eles se cruzem.