Às margens de uma das mais importantes referências geográficas do Sul do Brasil, o Rio Uruguai, uma história de coragem, trabalho e desenvolvimento econômico permanece viva em Itá, no Oeste de Santa Catarina. O Museu dos Balseiros, instalado no Recanto do Balseiro, na Linha Simon, preserva a memória de homens e mulheres que, especialmente entre as décadas de 1920 e 1960, tiveram papel fundamental na exploração madeireira e no transporte de madeira pelo rio, conectando comunidades catarinenses e gaúchas a mercados da Argentina.
Mais do que um espaço de exposição, o museu representa um importante trabalho de preservação da identidade regional. A iniciativa nasceu da dedicação do empresário e turismólogo Nilo Brand, descendente de uma família profundamente ligada à atividade dos balseiros. Seu bisavô, João Simon, foi um dos pioneiros da atividade em Itá; seu avô, Martin Aigner, também conduziu balsas, assim como seu pai, José Delfino Brand.
Movido pela ligação familiar e pela preocupação de que essa história desaparecesse com o passar das gerações, Nilo começou a idealizar o espaço em 2007. A construção foi concretizada em 2013, transformando o Recanto do Balseiro em referência turística, histórica e cultural da região.
Em seu relato, o idealizador define o museu como uma homenagem aos homens e mulheres que enfrentaram grandes dificuldades para garantir o sustento de suas famílias. Um trabalho que, segundo ele, não deve ser contado apenas como uma aventura, mas como a trajetória de pessoas comuns que encontraram no rio uma oportunidade de sobrevivência e desenvolvimento.
O ciclo da madeira e a integração regional
A atividade dos balseiros marcou profundamente a economia do Oeste catarinense e do Noroeste gaúcho. Na primeira metade do século XX, a exploração de madeira nativa, especialmente do cedro, impulsionou o comércio e abriu caminhos para a circulação de recursos entre comunidades que tinham no Rio Uruguai sua principal ligação.
As balsas eram construídas com grandes toras de madeira, amarradas com cipós e conduzidas por equipes de trabalhadores experientes. As viagens exigiam conhecimento do comportamento das águas, domínio das técnicas de navegação e muita coragem para enfrentar corredeiras, pedras, enchentes e outros obstáculos naturais.
Uma das rotas partia de Itá em direção a São Borja, no Rio Grande do Sul, percorrendo aproximadamente 580 quilômetros pelo Rio Uruguai. Depois da comercialização, a madeira seguia para Santo Tomé, na Argentina, de onde alcançava outros mercados.
As viagens podiam durar até três meses. Os balseiros precisavam enfrentar dezenas de pontos perigosos, trabalhando em condições difíceis e dependendo das cheias do rio para conduzir as embarcações. O retorno também era uma jornada: depois da venda da madeira, muitos voltavam de trem e percorriam longas distâncias a pé até suas comunidades.
O dinheiro obtido com a comercialização movimentava o comércio, financiava propriedades rurais e contribuía para o desenvolvimento de diversas localidades dos dois estados. O ciclo da madeira, portanto, não foi apenas uma atividade econômica: representou uma etapa importante da formação social e econômica da região do Alto Uruguai.
A força das mulheres também faz parte dessa história
O trabalho de preservação desenvolvido pelo museu também resgata a participação feminina. Enquanto os homens permaneciam meses nas viagens pelo rio, as mulheres assumiam a responsabilidade pela casa, pelos filhos, pela produção de alimentos e pela manutenção das propriedades.
Eram verdadeiras protagonistas da vida familiar e comunitária, enfrentando a incerteza de esperar pelo retorno dos balseiros. Parteiras, benzedeiras, professoras e agricultoras também desempenhavam funções essenciais para a organização das comunidades.
Essa dimensão humana amplia o significado do acervo, mostrando que a história das balsas foi construída por muito mais pessoas do que aquelas que conduziam as embarcações.
Um patrimônio preservado para as novas gerações
O Museu dos Balseiros reúne fotografias, ferramentas, utensílios, objetos centenários, documentos e relatos que ajudam a reconstruir o cotidiano daquela época. A exposição de longa duração, inaugurada em janeiro de 2022, foi organizada com base em pesquisa histórica, fontes orais e peças do acervo, proporcionando uma nova abordagem sobre o ciclo madeireiro e seus personagens.
A estrutura também reproduz referências arquitetônicas das antigas casas dos primeiros colonizadores, aproximando os visitantes do ambiente em que viveram as famílias pioneiras.
O trabalho de Nilo Brand ganhou reconhecimento além das fronteiras regionais. O Recanto do Balseiro recebeu destaque no programa internacional Green Destinations, figurando entre as histórias de boas práticas de turismo sustentável reconhecidas pela iniciativa Top 100.
A experiência demonstra como a preservação da memória pode caminhar junto com o turismo, a educação patrimonial e o desenvolvimento local.
Um legado que pertence a Santa Catarina e ao Rio Grande do Sul
A importância do Museu dos Balseiros ultrapassa os limites de Itá. Sua história também pertence ao Rio Grande do Sul, especialmente aos municípios do Alto Uruguai e às localidades que mantiveram relações econômicas e sociais com o transporte fluvial.
O Rio Uruguai, que hoje representa uma referência geográfica e turística, foi durante décadas um caminho de trabalho, comércio e integração entre comunidades. As balsas transportavam madeira, mas também levavam consigo o esforço de famílias inteiras e ajudavam a construir a economia regional.
Ao dedicar parte de sua vida à recuperação dessa memória, Nilo Brand transformou uma história familiar em patrimônio coletivo. Seu trabalho permite que as novas gerações conheçam a trajetória dos balseiros e compreendam a importância do rio na formação econômica e cultural do Sul do Brasil.
Em Itá, a história continua sendo contada. E, graças a essa iniciativa, a coragem dos homens e mulheres que desceram o Rio Uruguai permanece viva na memória de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.
Legenda: Empresário e turismólogo Nilo Brand