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Especial

Nadine Anflor, a primeira chefe de Polícia do RS

Nadini
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Foram precisos mais de 177 anos para que uma mulher chegasse ao cargo de chefe de polícia no Rio Grande do Sul. A honra coube à delegada Nadine Tagliari Farias Anflor, empossada no cargo em 8 de janeiro de 2019. Natural de Getúlio Vargas, de onde saiu cedo para estudar, Nadine reconhece que sua indicação representa uma quebra de paradigmas.

Dizendo-se lisonjeada com a possibilidade de representar as policiais civis do RS, Nadine revela, em entrevista ao Bom Dia, alguns de seus principais projetos – entre os quais o compromisso de prestar um melhor atendimento à população. Também reconhece que o rompimento de barreiras em relação a essa ‘novidade’ (uma mulher à frente da polícia gaúcha) terá de ser vencida. Sobre o possível fechamento de delegacias no interior, sustenta que ‘esta não é a intenção’, embora revele que um diagnóstico está sendo feito pelo governo estadual para avaliar o quadro e orientar decisões. A seguir, os principais trechos do bate-papo.

 

Bom Dia - A Polícia Civil do RS foi fundada em 1841 pelo Imperador Dom Pedro II. De lá para cá, a Sra é a primeira mulher a ocupar a chefia da instituição. Por que demorou tanto?

A construção para que chegássemos a este momento vem de décadas. Várias líderes/pioneiras fizeram sua parte e abriram portas, vencendo etapas. Hoje, as mulheres representam 37% da força policial do Estado. Sinto-me honrada em representar cada uma delas. Estou ciente de que estamos falando de uma quebra de paradigma, mas me preparei para isso; assim como outras tantas também estão preparadas para comandar delegacias de Homicídio, da Mulher e outras, como já vem acontecendo.

 

Bom Dia – A posse aconteceu no dia 8 de janeiro. Nestes dois meses, quais foram os avanços percebidos? Qual deverá ser sua principal linha de ação?

Embora já estejamos atuando e imprimindo nossa linha de trabalho, as melhorias serão percebidas ao longo do tempo. Destaco, por exemplo, o trabalho de integração entre os departamentos da Polícia Civil, que devem atuar e investigar em conjunto – tendo, aliás, uma investigação centralizada. Sem isto, não há como avançar. Em relação às metas, nosso olhar será para oferecermos um atendimento com mais qualidade ao cidadão. Não basta fazermos grandes investigações, e isso temos feito muito bem, sem que, no entanto, a vítima não seja bem atendida. Quando chega à delegacia, a pessoa não pode se sentir vítima pela segunda vez.

 

Bom Dia – Sendo natural de Getúlio Vargas, conhece as peculiaridades locais. Entre elas, a falta de efetivo – que se repete em todo o RS. Como desenvolver um bom trabalho diante deste quadro?

Como você diz, a falta de efetivo é geral. A região de Erechim – que tem 27 órgãos policiais abertos, número bastante considerável – é uma das que mais sofre com isso. Mesmo diante desta realidade, podemos melhorar a partir da integração dos trabalhos e um olhar que permita o atendimento regionalizado.

 

Bom Dia - Na região, fala-se com preocupação sobre a possibilidade de fechamento de delegacias. Esta é uma possibilidade real?

A Polícia Civil não quer fechar nenhum órgão. Estamos presentes em 65% dos municípios do RS e entendemos que é fundamental estarmos lá. O que está sendo feito, no entanto, é um diagnóstico dos órgãos policiais, das condições de trabalhos dos servidores e da prestação de serviços à comunidade levando em conta os índices de criminalidade. Não se quer fechar; se houver qualquer fechamento isso será muito conversado com a comunidade, com os prefeitos, enfim, construído desde que o serviço estabelecido não deixe de ser prestado. Pode até ter um serviço regionalizado, mas num primeiro momento o que está sendo feito é um diagnóstico da realidade do estado. 

 

Bom Dia - A delegada tem larga experiência no combate aos crimes em geral, e, especialmente, contra a mulher. O que fazer para diminuir a violência contra as mulheres?

Tive uma experiência de quase sete anos como titular da Delegacia da Mulher de Porto Alegre e fui a primeira coordenadora do RS das delegacias especializadas, lutando, aliás, por esta especialização – que é muito importante. Para que avancemos, porém, precisamos falar a respeito desta violência que é silenciosa, atinge todas as classes sociais e não tem hora para acontecer, sendo que, muitas vezes, o autor é o companheiro, o pai, ou o filho. Além disso, é preciso estimular uma rede de atendimento às vítimas, com foco na proteção e também na busca pela mudança do comportamento machista do agressor, até para que ele não reincida com a mesma ou com outras mulheres. Esta discussão, aliás, deve iniciar desde cedo, nas escolas.

 

Bom Dia - Os crimes patrimoniais também estão no seu radar. Como a Polícia pode ser mais efetiva nesta área?

Mais uma vez, a integração de esforços é a palavra-chave. Por meio desta aproximação entre os departamentos, precisamos identificar as associações criminosas que estão atrás das quadrilhas. Devemos nos preocupar, claro, com os grandes crimes, mas não só com estes. Os chamados ‘crimes ordinários’ ou pequenos delitos, especialmente com uso de arma de fogo, também merecem nossa atenção.  E assim faremos.

 

Bom Dia - Qual é o ‘peso’ do tráfico de drogas na criminalidade registrada no RS?

Muito alto. Só nos homicídios o índice é superior a 80%. Nossa atuação deve ser no desmantelamento do crime organizado, a partir de investigações da lavagem de dinheiro, a fim de descapitalizar as quadrilhas promovendo, a partir da apreensão dos objetos adquiridos ilicitamente pela venda das drogas – que devem ser revertidos em investimentos na segurança pública, notadamente na própria Polícia Civil.

 

Bom Dia - Como estreitar a relação entre a Polícia Civil e a Brigada Militar? Que ganhos pode haver com uma maior aproximação entre os órgãos?

Acredito que já há uma integração bastante forte, e quem ganha com isso é a sociedade. É claro que temos que respeitar as atribuições legais de cada um: enquanto a BM faz o trabalho ostensivo e de prevenção, a Civil é uma polícia judiciária, que deve fazer a investigação. Além disso, considerando que hoje o coração das polícias é a inteligência, deve haver uma aproximação contínua das instituições e também de suas inteligências, com trocas de informação.

 

Bom Dia - Por fim, a delegada acredita que será construído um novo presídio em Erechim? O que falta para a obra acontecer?

De modo geral, nossa maior dificuldade é o sistema prisional gaúcho devido à ausência de vagas – o que fez com que, depois de 30 anos, voltássemos a ter presos detidos em delegacias. Estamos buscando contornar esta situação a partir da integração entre Susepe, Polícia Civil, secretaria de Segurança do RS, além de conversas com o MP e o Judiciário. Em relação a Erechim, conheço o problema e estamos acompanhando as soluções encaminhadas, entre as quais, a construção de um novo presídio – o que depende do engajamento da sociedade local e das prefeituras, tendo em vista a situação financeira do Estado.

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