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Opinião

Sapateiro de Bruxelas: Os Chatos e a Covid-19

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Após longo período de reclusão espontânea e afastamento de todos os círculos de relacionamento, o Sapateiro de Bruxelas retornou ao convívio com os amigos, ora pela internet.

O temporário anacoreta se diz à beira de um ataque de nervos. Sente falta das conversas fraternas, do aroma do café, além das infindas preleções diárias.

Mesmo assim, o matreiro senhor, não perdeu totalmente seu senso de humor característico. E como é de seu feitio, desta vez na telinha do computador, logo enveredou por tema no mínimo curioso.

A bola da vez, para neutralizar as agruras da quarentena, foram os inevitáveis e frequentes encontros com os murrinhas do dia a dia normal, pré Covid–19. Ou mais especificamente um determinado chato que agrega todas as características da espécie.

Desse modo, com malícia no olhar, iniciou sua tradicional prédica: Amenidades, amenidades! É o que precisamos nesses tempos de clausura – clicou o artesão.  Pois as eventuais diversões caseiras estão ralas, repetitivas e insuportáveis como a sopa de todos os dias. Na verdade, nem eu me aturo mais.

Queixou-se estar saturado de estatísticas letais e intrigas globais tão previsíveis quanto o próximo caldo de legumes. As coisas estão horríveis, cansativas e repetitivas. Uma       legítima tortura chinesa, ao seu entender.

Disse ainda, que até a tão cultivada arte de falar mal, exercida com denodo e canarinho nos cafezinhos, havia minguado definitivamente. A redução dos passeios noturnos ou diurnos por ambos os sexos, causada pelo distanciamento social, além do uso de máscaras, têm determinado um estrago federal nas origens do salutar fuxico cotidiano.

Na falta de ingredientes básicos para desenvolver suas brilhantes teses, o bruxelense apelou às reminiscências: Fez ressurgir na memória velhos amigos e conhecidos chatos, tipos realmente inesquecíveis da fauna local. E abriu o verbo.

Segundo conhecimentos exarados pelo artesão, desta vez on-line, os chatos fazem parte de uma imensa cadeia parasitária universal de segunda ordem. Somente são suplantados pelos políticos em geral - igualmente incongruentes, no entanto muito mais danosos à sociedade. Os agentes etiológicos se caracterizam por infestar a paciência alheia, alimentando-se preferencialmente de situações inadequadas, controversas e inúteis. Não deixam de dar palpites sobre qualquer assunto, e invariavelmente chegam a conclusões inócuas.

O nome científico da espécie é Chatus Chatus. Embora pertencente ao gênero humano, faz parte da Ordem Phthiraptera estabelecida por Hackel em 1896 - casualmente a mesma dos piolhos. Mesmo que a classificação científica seja relativamente recente, a espécie existe desde os primórdios da humanidade.

O calçadista, que se diz autoridade internacionalmente reconhecida no assunto, afirma que os danos causados pelas atividades perniciosas do operador, são diretamente proporcionais à exposição temporal e proximidade física do hospedeiro.

O Chato Comum ou Chato de Galochas, formam pequenas variações do original e atingem as pessoas preferencialmente pela via auditiva. No entanto, em infestações maciças, podem afetar todos os sentidos. Hoje se tem como certo que a transmissão das toxinas, as chatinas, se dá pelo contato direto com a vítima.

Experimentos recentes, confirmados pelas Universidades de Oxford (UK), Sorbonne (FR), Stanford (EUA) e Kuala Lumpur (MAS), além de outros centros universitários menos cotados da China, Rússia e Papua, confirmam a presença crescente dos sarnosos na internet, mais especificamente no Facebook, porém, sem riscos de contaminação.

A chatice, ao entender do douto mestre, pode ser classificada como uma doença socialmente transmissível, muitas vezes hereditária, e possui inequívoca identidade grupal. Entre os grupos mais ativos e prevalentes, destacam-se parlamentares em geral, profissionais liberais das Ciências Exatas e Humanas, além de outras ciências afins.

Os sintomas desencadeados pelos abelhudos (outra denominação da espécie) são imediatos, e ocorrem ainda durante o primeiro contato. As queixas mais comuns relatadas pelos afetados são irritabilidade, inquietude e até coceira generalizada. Em casos mais graves podem surgir zumbidos, tonturas, náuseas, palidez, taquicardia e alterações na pele semelhante à urticária.

Geralmente o inconveniente age da seguinte forma: chega por trás, sorrateiro, e puxa vítima para junto de si. Não contente com o incômodo causado pelo contato físico impróprio, sussurra algo inaudível na orelha do oprimido, que à essa altura, encontra-se parcialmente atingido por nuvens de bafo de onça salpicadas por perdigotos. Aqui o célebre belga salienta que todo o enchedor de saco que se preza, emite imensa quantidade de gotículas de saliva ao falar, acompanhada de halitose fortíssima.

Logo depois do surpreendente ataque, o aporrinhador passa a falar em voz alta e gesticular ridiculamente, sem dar a menor chance ao sacrificado.

Mesmo em situação extrema, depois de estabelecido o contato em terceiro grau, não há mais como eliminar ou escapar dos grudentos. O versado guru explica que várias fórmulas já foram testadas, mas todas sem efeitos cientificamente comprovados. O negócio é ficar atento e sair de fininho na primeira oportunidade.

No entanto o mestre recomenda como tratamento preventivo o afastamento dos ambientes de risco – o que, diga-se passagem, não é fácil -, além do uso de Hidroxicloroquina - ainda em discussão no Supremo Tribunal Federal.  Em casos muito graves, segundo o perito, é permitido o uso de força moderada ou mesmo spray de pimenta. Há estudos em andamento no Canadá e Austrália que sugerem pistolas Teaser em situações irreversíveis

Um tratamento caseiro e menos drástico, embora de pouca valia prática – dizem -, é colocar uma vassoura virada com o cabo para baixo atrás da porta de saída do recinto.

A profilaxia, que ao final parece ser a única alternativa eficaz de não padecer do mal, se dá por evitar lugares potencialmente contaminados como cafés, bares, clubes sociais e de serviços, além de encontros de antigas turmas de colégio ou de trabalho.     

Ao concluir, afirma que é difícil conviver com essas figuras                                 indiscretas e bisbilhoteiras. No entanto, há de se convir que, embora sacais, enfadonhos e maçantes, são melhores que o isolamento imposto por outros chatos de maior quilate fantasiados de autoridade.

E o Sapateiro de Bruxelas arremata: O Coronavírus de certa forma se comporta qual o chato. Ataca quando menos se espera, em filas de caixas, supermercados, armazéns, bancos e repartições públicas. Como é igualmente fofoqueiro, adora uma sala de espera – principalmente de prontos-socorros – e locais de aglomerações. Também é chegado a festas de igreja, aniversários e churrascadas familiares nos finais de semana. Por óbvio, seu meio de transporte preferido é o ônibus, onde encontra maior freguesia para atormentar. Lembra ainda que o vírus é impiedoso com os velhinhos e com os distraídos, que esquecem da sua existência. O microrganismo, de forma idêntica aos chatos, não perde oportunidade de contágio, e pode ser letal.

No final de sua live, o artífice recomendou a todos muito cuidado e o maior isolamento social possível enquanto durar a pandemia. Assim, no futuro nos reencontraremos, inclusive com a presença dos queridos amigos mais espaçosos. E lembra que sorrir é um grande remédio.

 

Médico e membro da Academia Erechinense de Letras

 

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