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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas: Confissões em Tempos de Pandemia

Alcides Mandelli Stumpf.
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O Sapateiro de Bruxelas, no exílio determinado pela Covid-19, em lugar incerto e não sabido, tem usado a internet como meio de comunicação preferencial. Talvez, pelo distanciamento físico, adota um tom mais intimista em suas manifestações.

No último contato que tivemos há alguns dias, falou que usa as horas vagas para pensar e rever algumas posições e conceitos do cotidiano dito normal. Aproveita para praticar autoanálise, e, de certo modo – na sua linguagem peculiar –, se decompor e se conhecer melhor.

Descobriu em suas meditações solitárias, que é um ser corporal, e nem por isso um ser social no sentido alegre da palavra. Constatou também que a percepção que os outros tem dele se dá pela sua expressão, imagem, modos, voz e, recentemente, pelo material escrito postado nas redes sociais. Das três alternativas - ser visto, ouvido e lido – nesse momento de retiro espiritual e profunda concentração, última opção é a que mais lhe agrada.

Observa que cada manifestação não brota do teclado totalmente pronta. Cada mensagem é construída por ideias, reflexões, palavras, frases e parágrafos com fins específicos - diferente da linguagem coloquial. Desse modo, frequentemente, ao produzir um texto ou um artigo chega a becos sem saída. No entanto, a solidão reconfortante, lhe permite voltar atrás e desconstruir seus raciocínios e ideações. Isso é muito bom – diz o sapateiro-, mas não dá para fazer na vida real, da boca para fora.

Para o artesão, escrever é ficar invisível, é deixar de existir fisicamente e assim se tornar mais gentil, generoso, tolerante em relação aos outros. 

Além do mais, o mestre não precisa ficar exposto às réplicas da dialética rasa de estranhos, às vezes tão planas em seus argumentos que deixam lógica totalmente desfigurada no conteúdo. No entanto admite que a única forma de avançar criativamente é permitir ser julgado pelo público – mesmo que vez por outra, por algum idiota.

Aos amigos de longo tempo, o calçadista fez mais uma revelação surpreendente: Confessou sua timidez inata. Contou que sente calafrios quando lembra da vida normal e dos compromissos sociais que era solicitado antes da Covid-19.

Muitas vezes, nós, os tímidos, não somos bem entendidos por formamos uma espécie de congregação de mártires sem causa aparente - diz o calçadista.

Para o atual eremita, um encontro social divertido era uma contradição em termos de interação interpessoal. Afirma que muitos amigos chegados compartilham desse mesmo desconforto, mas por recato ou boa educação, disfarçam a fobia quando obrigados a cumprir compromissos públicos ou protocolares.

Hoje no degredo voluntário, admite que cada vez mais está se tornando avesso a encontros alegres e fofos. Lembra que para complicar, nesses convescotes, frequentemente era obrigado a vasculhar o seu arquivo mental em busca de conexões faciais, familiares e profissionais. Ficava preocupado em esquecer nomes ou cometer gafes. Tudo isso, é certo, lhe dava uma canseira danada.

Definitivamente revelou ser avesso a ambientes estranhos; sente-se deslocado entre pessoas com alto nível de diversão que normalmente acorrem a esses eventos.

Sim, a vida de eremita o tornou ainda mais esquivo e avesso a badalações – diz o belga.

Por último admitiu que os amigos do cafezinho lhe fazem uma falta tremenda, mas em compensação, o período de hibernação compulsória tem oferecido alguns privilégios extremamente prazerosos. Portanto, o mestre tenta viver a pacata paz interior do ostracismo sem maiores sofrimentos - excetuadas as terríveis perdas de vidas causadas pela pandemia. Não há como ser feliz nesse tempo de destruição de reservas, empregos, saúde e liberdade.

Lembrou que outra amenidade da vida de anacoreta é não fazer cara de paisagem ante as babaquices políticas e não ser obrigado a ouvir conversas irritantes e vazias.

Ao concluir, o Sapateiro de Bruxelas disse: O futuro e a magia são parecidos e dependem das nossas habilidades aplicadas no presente. No momento reconheço estar em desvantagem por pertencer ao grupo de risco. Pouco ou nada me é permitido fazer, além de contatos saudosos.

Mas, como de costume, ao encerrar sua live, deixou uma mensagem edificante a seus discípulos e seguidores: Vocês devem ser sempre otimistas, não desistir. Afinal de acordo com a leis da natureza, só poderemos comer o que conseguirmos matar. Força, esperança e fé: um dia tudo isso vai passar e voltaremos ainda mais fortes.

 

Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras

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