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Opinião

Sapateiro de Bruxelas: A Prensa e a Internet

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O Sapateiro de Bruxelas, mesmo em quarentena, em lugar incerto e não sabido, mantém contato com os amigos via internet. O isolamento, pelo que se percebe, não alterou seu senso de humor, ironia e agudeza de espírito. Alguns gracejos e imaginação completam o ferramental usado pelo artesão nas redes sociais. Seus textos são escritos como crônicas ou pequenos ensaios, sempre tendo na mira o cotidiano e seus desdobramentos. Impressiona a nós, seus discípulos, a sua capacidade de reação às adversidades e adaptação aos modernismos: atualmente, como tantos outros formadores de opinião, o preletor também aderiu às lives.

Em seu perfil no Facebook, o Sapateiro se diz cristão, adora literatura clássica e defende a liberdade da consciência individual; acredita no liberalismo político e valoriza a meritocracia. Esses são alguns traços inequívocos da sua personalidade firme e agregadora, embora comporte-se de modo bastante informal com os mais próximos.

Segundo o mestre, para produzir algum conteúdo prestável e com significado prático – tanto na internet como fora dela -, não se deve subestimar o poder da imaginação, que no seu caso, mantém uma oscilação vívida e proposital a respeito de inúmeros temas abordados.

A força da sua narrativa muito peculiar, vem da alternância entre o que ora provém da crendice popular, ora aquilo que realmente se deve levar a sério.

Assim, mesmo em reclusão, não deixa de cultivar o bom humor, a ironia leve e, não raro, o sarcasmo. Essas características surgem quase como uma reação espontânea à dureza das notícias da política e da pandemia. Para o calçadista tudo é motivo de sátira e galhofa, algumas vezes nada sutis.

Desse modo, nós, seus adeptos e humildes seguidores, não raro ficamos sem saber efetivamente se o Sapateiro é apenas um observador das crenças e boatos, ou se de fato vê tais informes e versões como deslavadas falácias.

Observo que em sua última live, como apreciador da História Universal e particularmente do período renascentista, o Sapateiro desenvolveu uma curiosa reflexão que entendo valer a pena passar ao leitor.

Trouxe ao contexto atual a obra de Johannes Gutenberg, inventor e gráfico do Sacro Império Romano-Germânico, do Século XV, e influência das atuais mídias sociais sobre a opinião pública.

Segundo sua exposição na telinha, no decorrer da Idade Média, os conhecimentos e a cultura convencional eram repassados a públicos seletíssimos através de livros escritos   pelos monges copistas, fruto de trabalho lento e ardoroso. Os textos à época, além de raros e inacessíveis à maioria, eram escritos em latim, o que complicava ainda mais o acesso à informação à plebe rude e ignara. E pior ainda: em geral eram adulterados pelos copiadores ao sabor de suas conveniências ou ordens superiores. Portanto os poucos conhecimentos que circulavam eram totalmente controlados e ditados pelos reis, nobres, alto clero e seus aliados de ocasião.

Com criatividade Gutenberg inovou ao unir a prensa de amassar uvas vinícolas às letras feitas de metal, de modo a criar a imprensa e propiciar a partir daí a ampla produção e consumo de material escrito. Logo surgiram tipógrafos e editores que naturalmente substituíram com imensuráveis vantagens os obsoletos monges copiadores, que devidamente e em boa hora foram mandados às cucuias.

Tal evolução tecnológica, que hoje nos parece rudimentar, deflagrou uma onda de crescimento exponencial ao conhecimento humano: ao propiciar a ampla disseminação e troca de conceitos em línguas vernaculares de domínio popular, deu-se naquele momento a fantástica arrancada para as grandes invenções, descobertas e o início da Idade Moderna. A humanidade nunca mais seria a mesma...até alguns anos atrás, quando – no entender do calçadista - tudo recomeçou. E explica:

Vejam como as coisas se repetem nesse mundo de Deus e do diabo – diz o experiente artesão.

Até há pouco, entre o final do Século XX e primeiros anos do Século XXI, as notícias bem como tendências e modismos eram ditadas e conduzidas por gigantescos conglomerados de jornais e emissoras de televisão. Continentes inteiros e mais alguns países se transformaram em verdadeiros feudos midiáticos, povoados por servos atentos aos seus ditames por vezes falaciosos e indecentes.

Com o avançar do tempo e o andar da carruagem, essas grandes empresas movidas a (muito) dinheiro e imensos benefícios estatais acabaram por adotar exatamente o mesmo modelo comportamental dos velhos monges copistas da idade média: passaram adulterar, criar ou omitir fatos, circunstâncias ou ocorrências ao sabor de interesses suseranos.

Aliás, as atitudes de certos grupos de comunicação de massa foram ainda mais deploráveis que a dos antigos religiosos que praticavam a castidade, pois ao tomarem partido de ideologias totalitárias, ofereceram seus serviços qual prostitutas pagas por desvios do erário surrupiado do povo. Formou-se então uma grotesca ciranda, onde as partes dançantes, em simbiose espúria, saqueavam sistemicamente a nação embevecida à frente dos aparelhos de TV.

Mas eis que a criatividade redentora aparece e resgata mais uma vez a humanidade das trevas. Falo da internet e suas mídias sociais, entre estas o WhatsApp, que permitiu o livre trânsito de informações, opiniões e pensamentos entre as pessoas de todos os tipos e classes em escala jamais sonhada. Com o advento da rede mundial de computadores e as facilidades dos palmtops e telefones móveis, cada indivíduo ampliou imensuravelmente suas possibilidades de contatos e influência, trazendo à tona verdade de cada um e do coletivo efervescente, ora novamente livre do cabresto de donatários do pensamento.

Muitos fatos e acontecimentos passaram ser descritos e exibidos em tempo real, sem maquiagens ou perfumes asquerosos. Esse imenso movimento cultural evidenciou os arcaicos monopólios de comunicações em vestes e atitudes de monges copiadores; suas mentiras e manipulações apareceram expostas a luz solar, na palma da mão de cada cidadão. É só clicar e constatar.

Portanto, entende o Sapateiro que a revolução digital propiciou nova onda de liberdade que ele chama de “autonomia de pensamento e opinião popular digital”, somente comparável à invenção da prensa há mais de quinhentos anos.

Assim aceito por nós aprendizes, ficou muito fácil concluir o porquê do desespero de alguns retrógados de várias matizes, pelagens e escalões que hoje fogem da verdade como o diabo da cruz.

Ao encerrar a live, o Sapateiro de Bruxelas usou e abusou de sua afiada verve, e declarou em alto bom tom: Seguem - de modo cada vez mais ridículo e grosseiro-, alguns dinossauros tentando alterar a realidade e as leis naturais da evolução tecnológica. Pregam - qual lunáticos em cortes medievais e praças públicas das aldeias - a volta ao obscurantismo. Chegaram a delírios de calarem os nossos celulares, nos tornarem analógicos como antes. Mas felizmente o mundo mudou e esses jurássicos senhores perderam a importância e o valor que jamais mereceram usufruir. O tempo os sepultará, um por um, na cova fétida da má lembrança histórica. Logo adiante um mundo melhor ressurgirá. Aguardem algum tempo. Nada mais certo, tudo vai melhorar.

 

Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras

 

 

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