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Opinião

Os contos do Dr. Paulo

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O conto é um dos gêneros literários que mais aprecio. No da ficção há enredo, da poesia a leveza, e da crônica a atualidade. É sem dúvida um gênero literário completo ao meu entender.

“A Face da Esfinge e o Beijo de Judas”, obra lançada pela Editora Edelbra em noite de autógrafos no Espaço Cultura, a 27 de novembro, nos mostra todas as características de um bom livro de contos. A narrativa é fruto do escritor maduro e colega médico, por todos carinhosamente chamado “Doutor” Paulo Fernandes.

Mostra o autor, em linguagem agradável, em momentos com acentuados traços regionalistas, a fragilidade humana diante do amor e da paixão. Há ao mesmo tempo, objetividade e poesia. Em algumas ocasiões, suas frases soam marcadas por pontuação rígida; lembram compassos de tango. Em outras horas quase se ouve ao fundo o sax melancólico de Gato Barbieri, repleto de erotismo e sentimento; não se distrai no virtuosismo dos adjetivos. Noutras vezes surge e nos toca com maestria ímpar em frases como: “Distraída como a despir-se para as águas”, mostrando domínio estético e rara ternura. “Lembrava dela a cada instante, passou a sonhar a cada noite, consigo imaginava, seria amor ou desejo? ” Sem dúvidas, não há como evitar a lembrança do grande Nelson Rodrigues.

Não sou crítico literário. Não tenho formação ou conhecimentos para tal ousadia. Mas sou enfático: Gosto e sempre gostei muito de contos.

Em invernos mais jovens – se é que existem invernos jovens – li e reli Steinbeck, revoltado convicto; Sartre, triste irrecuperável; Tchekhov, ingênuo e profundo; Machado de Assis, elegância escrita; Otto Lara Resende, perfeição linguística; Edgar Allan Poe, horror às mãos; além de Borges e Sabato, nossos memoráveis irmãos platinos; sem falar em Quiroga, talento campeiro e universal, aqui do Uruguai.  Todos estes e outros tantos que não lembro mais, persistem em acalentar meu espírito a alimentar meus pensamentos.

Na noite passada, a leitura dos contos do Dr. Paulo, decifrou a esfinge e mostrou o Judas que as vezes sou. Meus temores e minhas paixões agradecem o excelente livro que reavivou minha memória que insiste em voar para os melhores anos do passado. Erechim e Edelbra estão de parabéns.

                                                                              Novembro 1999.

 

PS: Esta crônica foi escrita há mais de vinte anos para um jornal local e faz parte do livro Amigos & Medos. A atual versão apresenta algumas alterações e hoje constitui tributo ao colega médico e confrade da Academia Erechinense de Letras Dr. Paulo Dias Fernandes, que há poucos dias nos deixou. O Senhor o recebe em Sua Casa, após a missão cumprida.

 

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