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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas e o Narcisismo Eleitoral

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Em sua última live, o Sapateiro de Bruxelas, que no decorrer da pandemia encontra-se oculto e em completo isolamento social, com tempo de sobra para devaneios diversos, falou sobre o Mito de Narciso. Destacou o artesão, que várias versões sobrevivem há séculos e que para ele a mais harmoniosa é a de Ovídio, em Metamorfoses, a qual usará como referencial nesse bate papo , com algumas atualizações necessárias.

O mestre explica que segundo a narrativa do poeta romano, autor de clássicos eróticos, Narciso era um moço muito bem dotado – entre outros atributos - de imensa beleza. Seus pais, rio Cefiso e da ninfa Liríope, dias antes de seu nascimento, consultaram o oráculo Tirésias para saber qual seria o destino do rebento. A revelação do oráculo, como sempre, foi enigmática: Afirmava que o menino teria vida longa, desde que nunca visse seu próprio rosto. Até aí tudo meio estranho, mas andava bem.

Ainda segundo a lenda, Narciso cresceu e se transformou um jovem atlético e belíssimo que despertava amor tanto em homens quanto em mulheres. Muito orgulhoso, era um verdadeiro boçal de arrogância extrema; ninguém o suportava. Vejam que as coisas começam a encrespar para o moçoilo – alerta o artífice.

Para desgraça do belo, a ninfa Eco se apaixonou por ele e o amou incondicionalmente. Mas o rapaz, sobranceiro e arrogante, a menosprezou - também incondicionalmente.

Eco - mesmo lindíssima era uma chata de galochas e repetia as últimas sílabas de tudo que ouvia - juntou-se as demais raparigas e mancebos desdenhados. Daí à desforra geral foi um pulo: reunidas em grande número ninfas indignadas, faunos ensandecidos e simpatizantes exaltados, protestaram ante a solene indiferença de Narciso. Irados, organizaram uma passeata ao Olimpo e encaminharam uma petição aos deuses supremos para vingá-los.

Não deu outra: Para aplicar uma lição ao frívolo e insensível rapaz,  Afrodite, uma deusa da mais alta corte mitológica, em sentença monocrática e corporativista, condenou o notável jovem a apaixonar-se pelo seu reflexo na lagoa de Eco. Assim, proscrito e sem direito a recurso em graus superiores, restou a ele penar enfeitiçado pela própria beleza. Terminou por definhar à morte mirando-se às tristes águas da vaidade.

Depois, Afrodite, em mais um ato totalmente tresloucado e arbitrário, o transformou numa planta de bulbo ovalado muito cultivada como flor ornamental. Eis aí a primeira lição da live, para quem não sabe: A vingança ante o desprezo amoroso é sempre drástica e maligna – afirma o sábio.

E continua a ensinar que o substantivo masculino narcisismo significa amor pela própria imagem e deriva da palavra grega narke. Narke significa entorpecido e dá raiz a narcótico. Assim, Narciso simboliza vaidade e frieza, por ser emocionalmente entorpecido às solicitações daqueles ou daquelas que o admiram e também dos que não o admiram.

Na sequência, o velho e astuto belga, muito sagaz e sempre atento aos movimentos políticos, passa a seguinte ilação: Na próxima eleição, como em tantas outras eleições municipais, há de surgir vários candidatos terrivelmente apaixonados por si mesmos. Essas figuras somente têm ouvidos à própria voz e olhos à própria imagem. Desprezam a opinião e a impressão alheias, pois na privacidade e alta conta pessoal, nada supera suas intuições e qualidades políticas inigualáveis.

Ainda vaticina o bruxelense: Muitos desses tipos, ludibriados por seus egos espaçosos e estofados, parecem não ter autocrítica e sequer espelho em casa. Infelizmente terminarão por fenecer a contemplar a própria estampa nos santinhos da campanha e nos reflexos poço fundo e escuro do menosprezo eleitoral.

Porém, ao término da live, o Sapateiro de Bruxelas se redime e deixa uma mensagem edificante: O Mito de Narciso não simboliza apenas mera negatividade. Representa, por outra face, o drama da individualidade. Mostra a intensidade da catarse pessoal que toma consciência de si mesmo, em si mesmo e perante a si mesmo. Ou seja: o calejado mestre finalmente convence que somente sozinhos e abandonados em nosso mais absoluto íntimo conseguimos experimentar os mais profundos dramas da condição humana. E lamenta que para alguns de menor sorte essa purgação venha acontecer de forma pública. E às vezes, até vexatória.

 

Médico e membro da Academia Erechinense de Letras

 

 

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