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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas: Liderança e Credibilidade

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Nesses tempos que antecedem as eleições municipais e muito zum-zum patrocinado pela Covid-19 e demais acontecimentos locais, o Sapateiro de Bruxelas, se mantém em rigoroso isolamento social, obediente as recomendações médicas inerentes a sua avançada idade. Assim, a conversa com a turma do cafezinho flui através da tecnologia digital. Em sua última live, o belga abordou o tema “Liderança e Credibilidade”, trazendo à baila um episódio ilustrativo da História Universal, ciência que – aliás - muito aprecia.

Inicia o artesão lembrando que no ano de 63 a.C., Júlio César foi eleito pontifex maximus, ou sumo-sacerdote da religião estatal romana. Tal cargo dava direito a algumas mordomias, entre as quais uma luxuosa vila na Via Sacra – hoje, mais ou menos o equivalente a uma mansão no lago Paranoá em Brasília. No ano seguinte, no mesmo endereço e local, sua esposa Pompeia realizou um festival em homenagem a Bona Dea (boa deusa),no qual homem nenhum poderia participar.

Porém, um jovem patrício de nome Públio Clódio Pulcro, muito ladino e enfiado, conseguiu adentrar entre as belas - aparentemente com objetivos óbvios e libidinosos - disfarçado de mulher. Porém, também por motivos óbvios e libidinosos, o despudorado rapaz foi pego em flagrante e imediatamente processado por sacrilégio ao atentar contra a honra da esposa do magnífico general.

Durante o julgamento o grande César, sumamente ofendido, não ergueu uma palha e sequer apresentou qualquer evidência contra o travestido Clódio, resultando que o buliçoso mancebo acabou inocentado, lindo, leve e solto.

Porém, o poderoso César, que não era candidato a mais nada, pois já havia conquistado o Mundo e exercia zelo absoluto pela sua imagem e reputação, não deixou barato: para não ver arranhada sua credibilidade planetária, pomposamente deu um solene chute no pomposo traseiro de Pompeia, além de afirmar publicamente: "minha esposa não deve estar nem sob suspeita".

A partir desse acontecimento histórico tão drástico quanto real, ensina o mestre calçadista que a expressão “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”, faz parte do livro Vidas Paralelas de Plutarco. Informa ainda que a obra é um relato autêntico da vida de Cícero, um dos maiores oradores da humanidade, que teria proferido a famosa sentença em eloquente discurso no Senado Romano, ao aludir o famigerado festim imperial.

Desde então – reforça o artífice -, o significado da frase remete, essencialmente, à ideia de que os líderes devem sempre agir de forma que se apresentem acima de todas as suspeitas, mesmo que nada de errado tenham feito. Com isso reforçam sua reputação e conquistam credibilidade.

E diz mais, o astuto belga.

 - Credibilidade sempre foi um atributo essencial nos mais diversos tipos de relacionamentos, especialmente entre marido e mulher – como visto no caso de César e Pompeia – bem como entre eleitos e eleitores.

Insiste o artífice em afirmar que o comandante só é digno de crédito quando ele consegue estabelecer relações interpessoais em que os seus seguidores se sintam confortáveis e seguros em concordar ou até divergir de seus planos ou ideias. Pois liderança demanda confiança. 

Lembra ainda o artesão, que no dicionário Aurélio, o significado da palavra credibilidade é definido como qualidade de ser crível. E explica: Se voltarmos esse conceito para o mundo corporativo ou político atual, que exige dos profissionais ou candidatos uma incessante busca por mudanças acompanhadas por padrões éticos e comportamentais exemplares, a credibilidade só se mantém quando conquistada pela confiança pessoal, diálogo autêntico e atitudes assertivas e transparentes por parte do chefe. O contato direto -ainda que virtual- também faz parte desse novo contexto e legitima a autoridade.

Enfim - diz o Sapateiro de Bruxelas -, os pretendentes a cargos de mando devem ser figuras respeitáveis ante seus interlocutores ou potenciais eleitores, que – mais que nunca- lhes exigirão os atributos necessários para além de serem honestos, parecerem honestos, como falou Cícero sobre a mulher de César há mais de vinte séculos.

E alerta os pretensos candidatos a líderes que assim não forem percebidos por conta do passado de traições, futricas e hipocrisias, além de continuada conduta egocêntrica, ridícula e disparatada, deverão se manter atentos e prevenidos, pois logo logo estarão sujeitos a um semelhante e soleníssimo pontapé no rabo, por parte de seus imaginados seguidores.

Ao encerrar, de forma quase singela, o Sapateiro encaminha outra frase de efeito, bem mais simples, mas não menos emblemática que a de Cícero: Um líder sem credibilidade - em última análise - é igual a um palhaço, ao fim suas trapalhadas, só nós fazem rir.

 

Médico e membro da Academia Erechinense de Letras

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