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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas: Eleições, Ditados e Coligações

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O Sapateiro de Bruxelas, por fazer parte do grupo de risco, permanece em isolamento social durante a pandemia. Assim, de lugar incerto e não sabido, se comunica conosco, seus seguidores, por intermédio das redes sociais e as já tradicionais lives semanais.

Em sua última aparição virtual, o artesão abordou o tema das coligações partidárias, tão em voga no momento - de acordo com a arcaica linguagem do mestre.

De início menciona um antigo ditado alemão com o seguinte dizer: Duas metades de um cavalo não fazem um cavalo.

Logo explica: Ensinam os detalhistas e minuciosos germânicos que se contarmos com meio cavalo dianteiro, mais meio cavalo igualmente dianteiro, teremos um animal com duas cabeças e desprovido de bunda. Também, em hipótese oposta, haveria outra excrescência; o segundo bicho teria dois pares de nádegas e seria acéfalo. Ainda poderiam ser duas metades direitas ou duas esquerdas; ou mesmo duas inferiores e nenhuma superior, ou vice-versa. Todas, fatalmente, resultariam em monstrengos inúteis e inviáveis. Portanto, fica determinado e teoricamente comprovado que o dito alemão é verdadeiro: Duas metades de um cavalo (necessariamente) não fazem um cavalo.

Isto posto, e mantida a mesma linha de raciocínio, por questão lógica, seria muito menos provável que metade de um cavalo acrescida à metade de uma anta, por exemplo, resultasse num animal de acordo com os mínimos padrões aceitáveis.

No caso em tela – como dizem os bons advogados -, não resultaria em tapirídeo ou mesmo em hipomorfo, embora, ambos os quadrúpedes, pertençam ao grupo dos mamíferos e dos perissodáctilos – afirma o bruxelense. E se esbanja ainda maiores conhecimentos:

O cavalo, no jogo do bicho, corresponde ao grupo que abrange as dezenas 41, 42, 43 e 44. A anta, apesar de seus 180kg e pelagem pardacenta, não participa dessa competição tão popular.          

Assim, com o devido respeito aos parceiros de café, leitores, eleitores e demais munícipes, o sábio belga propõe uma analogia entre o velho ditado teutônico e algumas junções partidárias que se acasalam com vistas às próximas eleições. E questiona:

Já pensaram na ocorrência de enxertos exóticos providos de oito patas e descaudado? Outros ainda, cheios de orelhas à esquerda ou à direita? Muito estranho, não?... Lembra ainda, que para pesar de muitos e alegria de poucos, todos os arranjos - exceto um - desandarão aos pedaços antes da linha final.           

E segue nas suas divagações que chegam às raias do delírio: Talvez, somente o grande ficcionista argentino Jorge Luís Borges, em seu “Livro dos Seres Imaginários”, tenha concebido tão esdrúxulas espécies, semelhantes às que ora se unem em função da vitória no próximo pleito. Observem amigos, rabos e garras não faltam.

Embora admitindo que a situação pareça confusa, lembra que na praça existem exímios coladores e costureiros diplomados em anatomia eleitoral. Verdadeiros magos, especialistas na arte da reintegração e restauração da estrutura política.

Na sequência, resultado da livre associação de ideias, o artífice evoca o clássico ditado castelhano: Pero más sabe el diablo por viejo do que por diablo.  

Assim, o Sapateiro de Bruxelas, no estrito cumprimento de seu papel de orientador espiritual do grupo de cafezinho, recorda a quem interessar possa, que experientes sacerdotes zoroastristas, em ações coordenadas, se empenham ao máximo para apresentar ao público a criatura ideal - embora anômala aos olhos dos comuns mortais -, apta às funções eleitorais e eleitoreiras esperadas.

São esses viejos feiticeiros, profundos conhecedores da linguagem, linhagem e mazelas dos partidos a que pertencem ou que lhes pertencem. E, sim, em performances mágicas, com extrema habilidade, sacam da cartola a melhor combinação zoológica para cada momento específico.

Ao encaminhar o final da live o artesão comenta: Haverá apenas um animal vencedor, de focinho a rabo. O conjunto será o melhor engendrado: metade dianteira alinhada com metade traseira. Metade que pensa; outra metade que faz força. Talvez porquê, filhos do mesmo ventre, essas metades serão facilmente aceitas pelo público, que não é dado a notar certas discrepâncias genéticas.

Para encerrar, o Sapateiro de Bruxelas destila seu ácido humor: Não é preciso ser gênio no jogo da zoologia política para descobrir que cruza de orangotango com camelo ou de girafa com porco espinho não dá na cabeça eleitoral. E termina por citar mais um ditado tão equestre quanto gaúcho: Cavalo torto não dá carreira direita.

 

Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras

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