14°C
Erechim,RS
Previsão completa
Euro R$ 6,73 Dólar R$ 5,71
0°C
Erechim,RS
Previsão completa
Euro R$ 6,73 Dólar R$ 5,71

Publicidade

Opinião

O Sapateiro de Bruxelas, os Sete Pecados Capitais e ditados antigos

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O Sapateiro de Bruxelas, em estado de reclusão física total e à beira de um ataque de nervos devido à Covid-19, tem se comunicado com os amigos e parceiros de cafezinho por meio de lives.  Na linguagem da Internet, lives caracterizam transições ao vivo feitas pelas redes sociais de forma coloquial, geralmente com tema específico e atinge limitado segmento de internautas. No presente caso, nós, a velha turma do cafezinho.

Pois nesta semana, para surpresa geral, o guru que vem abordando os mais variados assuntos no decorrer das preleções virtuais, falou de algo deveras exotérico.

Abriu a prédica com a seguinte colocação: Os conceitos sobre os quais falarei hoje são conhecidos como os Sete Pecados Capitais.  Portanto, tais deslizes devem ser entendidos como graves falhas do caráter humano. É igualmente certo que esse conjunto de más condutas  é  antiquíssimo e precede o surgimento do próprio cristianismo. Assim, mais tarde, no intuito de organizar as desobediências e apontar as faltas graves, o catolicismo os anexou ao repertório de transgressões. Desse modo, de forma didática e catalogada, ficou mais fácil à igreja controlar os instintos mais baixos de seus seguidores – pelo menos na teoria.

E o bruxelense continua: Observem que não foi tarefa simples ordenar tais imperfeições. A lista final deu um trabalhão danado. Veio a público somente no início do Século XIII. Na realidade a versão divulgada foi fruto de uma anterior, lá do Século IV.

De modo até surpreendente, a publicação resultou na popularização dos Sete Pecados Capitais e patrocinou uma mistura inédita entre religião, arte e cultura. Portanto, embora o esforço em descrever a origem de todos os vícios tivesse como motivo primordial facilitar e regulamentar definitivamente o cumprimento dos  Mandamentos tabuados por Moisés, houve o benéfico colateral de impulsionar a criatividade artística. Exemplo exponencial desse efeito é a Divina Comédia, obra do grande poeta florentino do século XIV Dante Alighieri – reforça o calçadista.

Superado o preâmbulo, o belga passa a divagar sobre cada um dos Pecados Capitais, acrescidos de sagazes e cortantes comentários ajustados às circunstâncias atuais.

Primeiro fala da gula, o desejo insaciável por se fartar. Na verdade, gula está relacionada ao egoísmo e o querer sempre mais e mais. Aos que não resistem em disfrutar normalmente da vida e do seu trabalho, sobra tempero e falta temperança - ensina o mestre.

O segundo pecado é a avareza. Resume-se na afeição excessiva e descontrolada aos bens materiais, além da ânsia por ganhos exorbitantes. Os gananciosos, pães-duros ou mãos-de-vaca fazem de tudo - de forma certa ou errada - para obterem benefícios pecuniários lícitos ou ilícitos. Os sovinas, normalmente menosprezam jovens empreendedores, colegas, sócios ou amigos necessitados. São incapazes de provar a nobreza de um gesto de generosidade.

A luxúria é o terceiro Pecado Capital. Consiste no desejo passional por prazer sensual e material; apego aos deleites carnais e corrupção de costumes. Tal desvio, quando envolvem pessoas vulneráveis, de menor cultura e situação hierárquica ou econômica inferior, chega às raias da repugnância e do nojo - afirma o mestre. O oposto da lascívia é a castidade.

O sentimento de raiva ou ódio por alguém ou alguma coisa, é o quarto pecado catalogado no rol dos capitais.  A ira ou cólera, além do forte desejo de causar mal a outrem, atinge além de pessoas, organizações. Para os rancorosos, quanto pior melhor. Os irados são permanentemente intolerantes e ignoram a paz de espírito e a paciência.

A inveja, que deriva do latim invidia, e se manifesta como o desejo doentio por dons, habilidades ou posses dos outros, além do desgosto pela felicidade alheia. É a quinta falta comentada pelo artesão que explica: O invejoso desvaloriza os próprias bens, pois prioriza a ‘secação’ ao status alheio. Despreza o que possui e cobiça o que é do outro. Por sentirem-se inferiores, os invejosos passam a vida sofrendo e jamais praticam o altruísmo ou a caridade a quem quer que seja.

A preguiça é o penúltimo pecado abordado pelo mestre. Se caracteriza pela desordem, falta de capricho e pontualidade. É conhecida como a mãe de todos os vícios. O preguiçoso é identificado pela negligência e desleixo consigo e com os outros – inclusive com os que dependem dele ou acorrem aos seus serviços, pois não sabem ser diligentes ou do bem servir – ratifica o artesão.

A soberba é o sétimo e último pecado analisado. Está associada à arrogância e à vaidade. O orgulhoso se acha superior aos outros – embora na verdade seja, no mais das vezes, um rematado imbecil. A humildade é o seu oposto - afirma o artífice.

Naturalmente, como é do seu feitio, ao encaminhar o fecho da live, o Sapateiro exorta os amigos: Vocês acham que uma só pessoa, um só canalha, um só velhaco poderia reunir tantas maldades?

E, de pronto, ele mesmo responde: Pois eu lhes asseguro que sim. Infelizmente conheço alguns e um em especial que detém todas essas deformações e outras tantas mais. Além de viver de futricas é um grande mentiroso, explorador, seborreico, feioso e esganiçado. Certamente, por obra do satanás, essa criatura existe e – infelizmente - segue semeando a discórdia por onde passa: Ora protagoniza trapaças, intrigas, calúnias e verdadeiros incêndios morais; ora banca o bombeiro, o apaziguador, o inocente, na armação do próximo golpe ou mesquinhos privilégios.

Mas para alento geral dos parceiros de café, ao encerrar a live o Sapateiro de Bruxelas lembra de sua querida avó, idosa italiana com 112 anos, que invariavelmente lhe diz: Al diàol al fa la pignata ma 'l fa minga 'l cuèrc. Ou seja: O diabo faz a panela, mas não faz a tampa. E assevera: o mal ensina a fazer ações ruins, negativas, comprometedoras, mas não ensina a mantê-las escondidas ou a desfazê-las. O capeta ensina a roubar, por exemplo, mas não dá garantias quanto ao esconderijo do roubo. As conversas astutas, as malvadezas, os convencimentos íntimos podem funcionar como verdadeiras panelas ou panelinhas de pressão para esconder as ações deploráveis, mas nunca são suficientes para mantê-las ocultas ou tapadas para sempre. O ratão que pratica atos recrimináveis ou más ações às escondidas, sempre deixa algum rastro ou vestígio que põe a descoberto suas obstinadas intenções.   

E finalmente se despede com mais um ditado ancestral: Tanto l’é ladro quél che roba cóme quél che tèng la scala. Ou em português castíssimo: Tanto é ladrão aquele que rouba, como aquele que segura a escada.

 

Médico e membro da Academia Erechinense de Letras

Leia também

  • Caos e cortina de fumaça

    Sim, existe um país mal resolvido, extremamente desigual, da fome e miséria, com milhões de desempregados, injusto e até cruel. Contudo, não é multiplicando desinformação, fomentando ódio, uma visão medíocre de sociedade, que só enfatiza a incapacidade de mudar a realidade, que se resolverá todos esses problemas. O pior é que enquanto se vende o caos, como cortina de fumaça, para 99% da população o restante 1% carrega de caminhão para casa os trilhões de reais que deveriam servir ao país. E, é claro, com o consentimento da Lei, tudo legal

Publicidade

Blog dos Colunistas