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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas: Debates Eleitorais e Aventuras de Capa e Espada

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O Sapateiro de Bruxelas persiste em estado de clausura por motivos sanitários em decorrência do isolamento social preconizado pelas autoridades igualmente sanitárias. Na vigência da pandemia, se comunica com o mundo por lives semanais que emanam não se sabe de onde e nem bem para quem. Porém, o mestre guarda as características absolutamente peculiares em suas preleções, entre as quais a total diversidade de assuntos – frequentemente enveredando às raias do absurdo.

Na corrente semana, o artífice volta a surpreender a turma do cafezinho ao reincidir em temas literários. Mais especificamente, aborda as chamadas aventuras de capa e espada - aliás, um dos gêneros de escrita favoritos do artesão.

Segundo o calçadista, o termo é usado para definir um determinado modelo de romance histórico, normalmente ambientado na Europa entre o iluminismo e as Guerras Napoleônicas. Tais brochuras se caracterizam por conteúdo repleto de peripécias, reviravoltas e suspense, que invariavelmente culminam em escaramuças e duelos.

Anteriormente, no Século XVII,  havia a comédia de capa e espada, gênero teatral originário da Espanha, com destaque para os dramaturgos Calderón de la Barca e Félix Lope de Vega.  As peças eram recheadas de intrigas, tragédias e outros incidentes que também podem ser observados nos contos de cavalaria medieval, como nas lendas de Robin Hood ou do Rei Arthur – ensina o literato.

Os progressos alcançados no campo da metalurgia no período da Renascença, propiciaram a introdução de novas espadas, cujas lâminas leves, compridas, finas e flexíveis, eram capazes de causar graves ferimentos aos violentos e inflamados discordantes. Semelhantes engenhos também eram conhecidos como rapieiras ou roupeiras e substituíram com inúmeras vantagens as pesadas armas de épocas anteriores, que dependiam mais da força bruta dos gladiadores que da agilidade dos espadachins – reforça o sábio.  

Já os primeiros romances do tipo foram publicados em formato de folhetins durante o Século XIX, por autores mundialmente consagrados como Walter Scott e Alexandre Dumas.

Vejam que os enredos de capa e espada formam uma espécie muito particular de ficção. As narrativas envolvem protagonistas exímios e implacáveis, que se empenham em fazer prevalecer o que é correto e direito. Invariavelmente as tramas apresentam heróis com particular aptidão para uma boa luta, cultuam a arte da esgrima e estratégias criativas, além de muita classe e rara sagacidade no desenrolar da história.

 Há uma longa lista de espadachins que combinam coragem excepcional, excelência em combate, desenvoltura física e distintivo sentido de honra e justiça. Esses homens tradicionalmente desenvolvem forte camaradagem entre si, são extremamente leais, além de se divertirem juntos em várias situações de peculiar cordialidade e companheirismo.

Mas ninguém é perfeito – acentua o preletor. Esses mesmos cavalheiros apresentam alguns desvios de conduta, quando não de caráter, pois são particularmente exibidos, orgulhosos, aventureiros e costumazes fanfarrões; facilmente se envolvem com prostitutas, apostas, bebida e brigas. É comum, em extravagâncias de tavernas, insultarem e humilharem os adversários publicamente – afirma o experiente belga.

Enfim, resume ao afirmar que o personagem principal desse gênero literário é heroico, idealista ao extremo, desassombrado e especialista em resgatar donzelas em perigo. Por outra, seus adversários clássicos são tipicamente caracterizados como traiçoeiros, covardes e ardilosos – iguaizinhos aos vilões atuais.

Assim, com a proximidade dos programas e debates eleitorais na TV, - que em nada se assemelham a duelos de probidade - ora potencializados pelas baixarias nas redes sociais da internet, o bruxelense tece as derradeiras considerações da live:

“Recomendo aos companheiros de café, no transcorrer da campanha política, a usarem o tempo disponível à leitura das seguintes e edificantes obras: Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo, Ivanhoé e O Vingador do Rei, entre outras. No entanto, caso algum dos parceiros não seja chegado à leitura, recomendo que assista divertidos filmes como Scaramuche, O Capitão Blood, O Gavião do Mar ou ainda A Vingança de Milady - o mais fraquinho de todos, mas com performance deliciosa da memorável Rachel Welch. Certamente, ao final do período, além de enriquecidos pela nobreza da cultura, todos sentir-se-ão melhores por não terem participado - se quer como espectadores - de um processo que muitas vezes descamba para mentiras, vilanias, insultos e ataques pessoais.

Alerto ainda, aos amigos que se arriscarem a presenciar o famigerado Horário Eleitoral, não esperem um espetáculo de idealismo, sagacidade ou cavalheirismo entre os contendores. Certamente as lutas encarniçadas serão bem menos virtuosas que as descritas nas acima citadas obras vitorianas.

Infelizmente o clima político reinante na atual campanha eleitoral tende a ser o de briga de bar, que por vezes descamba para pancadaria e termina por envolver gigolôs, prostitutas e seus diretos e diletos descendentes. ”

Com estas colocações pouco elegantes, o Sapateiro de Bruxelas se despede da turma e deseja um excelente e divertido feriadão a todos. Espera voltar na próxima semana, principalmente se permanecer isolado do mundo, tão somente dedicado a leitura e ao resgate de alguma donzela em perigo – ainda que reste para ele, nesses tempos de retiro compulsório, não mais que a boa intenção.

Médico e membro da Academia Erechinense de Letras

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