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Opinião

As eleições nos EUA e a vida a la brasileira

É preciso encarar de uma vez por todas a nossa própria realidade, de frente, nua e crua, a vida como ela é aqui e o que é preciso para melhorá-la

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O Brasil é um país repleto de riquezas naturais, econômicas, culturais, mas que há muitos anos ignor
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Rodrigo Finardi/Arquivo BD

O problema não são os outros, mas nós. Ao olhar para o complexo sistema eleitoral estadunidense, muitas dúvidas surgem, e é difícil entender tal sistema de eleição dos representantes públicos. Há quem diga que é mais justo, porém, não é essa a questão aqui, tampouco tenho uma opinião formada sobre o assunto. Preciso entender melhor esse sistema. Mas o que isso importa, nada! Literalmente, nada, para os norte-americanos, se o resto do mundo não entende como eles elegem seus políticos. E aqui está o ponto.

O que parece é que para os EUA o sistema eleitoral é a medida certa para a sua sociedade e deve ser preservado e defendido, com todas as unhas e armas é claro. Não importa o que os outros países dizem, pensem ou teorizem. Não interessa o que o mundo pensa, mas sim o que é o melhor para a sociedade local. E isso é perfeito, isso é o que nos falta aqui no Brasil como sociedade, desde o começo. Lutar por aquilo que se é.     

Não importa qual seja o problema do EUA e sua gravidade, a escolha de como lidar com ele sempre será gestada dentro da sociedade norte-americana, jamais fora, ninguém dá palpite na cozinha deles. Podem até se matar entre eles, internamente, mas não desperdiçam e jogam fora o próprio ouro para os estrangeiros. A fatia maior sempre será deles, e não foi Deus, as leis, acordos mundiais que definiram isso, foram eles, simplesmente eles, e o mundo que aceite essa condição. É claro que tanto poder de persuasão vem atrelado ao fato dos EUA serem a maior potência militar do mundo. Algo inimaginável, difícil de pensar. Na hora de conversar a arma sempre está à mão na mesa e pronta para disparar.

Agora, vou voltar para o ponto que queria, a realidade brasileira, que é completamente o contrário dos EUA, em quase tudo, quando o assunto são os interesses do Brasil e dos brasileiros. Aqui a cultura é entregar o ouro antes de conversar só pra agradar os estrangeiros, para se ter respeito por eles, e isso na verdade só faz angariar descrédito, porque quem não respeita o próprio povo não merece consideração, diplomacia sim, faz parte, mas não respeito.

O brasileiro é ignorado e desprezado pelas leis, pelo próprio sistema e governo há séculos. É considerado um estorvo a ser administrado, adiado e medicado até morrer. Que cruel essa frase. Não. A vida à la brasileira como é, hoje, é muito pior. O brasileiro está largado à própria sorte se quiser sobreviver, mas não quando o assunto é pagar impostos, aí o governo está plenamente atento, solícito e eficiente.

É quase impossível romper com essa cultura, deixei de acreditar nisso há muito tempo, porque o estrago está feito, consumado. Claro, a não ser que a realidade fosse transformada resolvendo as demandas e resgatando, massivamente, a nossa cultura. Mas não há sinais que algo assim esteja surgindo no horizonte político-econômico, para neutralizar essa fábrica de desperdício e moedor de carne que é o Brasil, hoje.

O brasileiro é educado diariamente para odiar o brasileiro, a desprezar quem é e menosprezar a sua cultura, é educado a abrir mão de tudo que lhe pertence, tudo que há de bom no Brasil. E, isso, é um prato cheio para alienar as pessoas e transformá-las em marionetes, descartáveis. É o alimento para mandos e desmandos, para se fazer o que se quer com esse país sem dono em que as crianças vivem, literalmente, com os pés no esgoto, enquanto bilhões de reais – dos brasileiros - se acumulam em bancos, nas mãos de meia dúzia de pessoas. 

O Brasil é um país repleto de riquezas naturais, econômicas, culturais, mas que há muitos anos ignora quem é, vira as costas pra si mesmo, desconsidera suas virtudes, sua essência, sua força e compra tudo enlatado de fora, a um preço muito alto: vende a própria dignidade.

E, repito, o problema está aqui, é gestado nas entranhas do país, é local, e legitimado por todos nós, pelas leis e sucessivos governos brasileiros. Por onde recomeçar? Não é batendo palmas para os EUA e suas teorias econômicas, mas olhar como Celso Furtado, entre outros milhares de intelectuais brasileiros, encarando de uma vez por todas a nossa própria realidade, de frente, nua e crua, a vida como ela é aqui e o que é preciso para melhorá-la.

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