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Opinião

O anônimo veneziano

Artigo escrito pelo Dr. Alcides Mandelli Stumpf, Médico, Membro da Academia Erechinense de Letras, Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.

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Arte
Por Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Foto Divulgação

Dr. Alcides Mandelli Stumpf, Médico, Membro da Academia Erechinense de Letras, Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.

Anónimo Veneciano ou O Anônimo Veneziano é um emocionante filme romântico italiano de 1970 que marcou seu tempo e sensibilizou a minha e outras tantas gerações.

Dirigido por Enrico Maria Salerno, conta no elenco com Tony Mussante e a atriz brasileira Florinda Bolkan, no auge de sua sensualidade, entre outros astros. Mas o que permanece com maior relevo na memória é a belíssima música composta por Stelvio Cipriani. Essa sim ficou para sempre.

Florinda Bolkan foi apresentada a Luchino Visconti, primo da Condessa Marina Cicogna, uma famosa produtora cinematográfica, e a partir daí sua carreira deu um salto para fama e reconhecimento internacional. Na época Florinda e Marina foram alvo de uma ruidosa fofoca sobre um caso de amor entre elas. Enfim, foram companheiras durante vinte anos.

Vamos ao enredo: Enrico, maestro e músico de renome, está gravemente doente e chama sua ex-mulher, Valéria, para um encontro em Veneza, depois de anos de separação. No início há o temor que ele queira acertar velhas contas do passado mal resolvido. Porém, durante a estadia, o amor renasce entre ambos. Enrico confessa que sofre de uma doença incurável. Valéria o ajuda a recuperar a dignidade, e o acompanha nos ensaios para um concerto.

Ao som da belíssima e marcante trilha sonora - que além da composição de Cipriani, conta com a 5ª Sinfonia de Beethoven e com o concerto para oboé em ré menor, adágio, de Alessandro Marcello - o par passeia pelas ruas da “Città dell'amore” e conversa sobre o antigo relacionamento, o filho em comum, paixões, frustrações e o destino.

A força da interpretação de ambos, o roteiro, e principalmente o fundo musical – tendo como palco uma Veneza sombria e cinzenta - consegue transpor à tela, a desilusão em relação aos afetos e à vida em geral: um verdadeiro turbilhão de sentimentos aflige e toca a cada espectador.

Os diálogos são envolventes, marcantes e profundos; mesmo os momentos de silêncio marcam constantemente a dor dos protagonistas. É impossível não se sentir tristemente tocado, embora alguns achem a película enfadonha e machista.

Repito: O Anônimo Veneziano tem músicas belíssimas que enriquecem o romance e tornam a história arrebatadora. A música seria um terceiro – e talvez o principal - personagem desse marcante filme. O certo é que o conjunto da obra desperta uma empatia dolorosa e inesquecível.
Fred Bongusto gravou “Cuore Cosa Fai”, o tema principal, de forma esplendorosa.

Seus últimos versos dizem assim:

Il sole alto splende già

sul viso anonimo di chi

potrà rubarti un altro sì,
un altro sì.

Il mondo é lì.
È lì.

Ou em português:

O sol já brilha alto

no rosto anônimo de quem
poderá te roubar um outro sim,

um outro sim.

O mundo está aí.
Está aí.

Recomendo que assistam sem medo de curtir um completo desgosto, sem medo da morte e sofrimento - temas ainda candentes nesse final de pandemia.

Sempre é tempo de apreciar a vida e a arte, mesmo em momentos de dor.

 

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