O Brasil não foi feito para os brasileiros, pelo menos, não para a maioria deles. Viver aqui exige um esforço monumental ao longo de toda a existência terrena brasiliense. De cara já aviso que não tenho nenhuma intenção em me mudar, aqui nasci e aqui morrerei. Inclusive já está dito onde serei enterrado para servir de alimento para a natureza. Não escrevo em tom de reclamação, porque nunca fui de reclamar e me lamentar, mas ver o ambiente em que vivo e a mim mesmo, com alguma criticidade. Só pra deixar registrado aos desavisados ou aqueles que não me conhecem.
Para muitas pessoas falar sobre o que o país não faz pelo seu cidadão, não faz sentido, porque, de modo geral, elas já entenderam que o negócio é dar atenção à própria vida, ao trabalho e à família e seguir adiante. Reclamar não vai mudar nada e só vai atrasar e retardar qualquer avanço pessoal e profissional, porque a realidade é maior que todos e de gerência vária, mesmo sendo formada por cada um de nós. Demorei pra entender isso, o mundo não está nem aí pra ninguém e se posso exercer algum controle é sobre o as minhas próprias tripas e nem sempre.
Tem pessoas que nascem em contextos completamente adversos, sem nenhuma condição material e conseguem vencer todos obstáculos e se realizar na vida de maneira profissional e pessoal. São aquelas criaturas determinadas que só vão, não olham pra trás, e nunca desistem não importam os desafios e o que venha pela frente. Conheço algumas delas. Elas encontram o seu caminho em meio às adversidades, de todos os tipos e níveis, parece até que só florescem após quebrar a dormência.
Outras nascem com tudo, num lar estruturado, sem problemas, entre aspas, a família tem condições de pagar os melhores estudos e a vida boa, seja onde for morar, e, mesmo assim, a pessoa não se encontra, vai de arrasto e nunca se acha. Há aqueles que ficam amarrados ante os menores obstáculos, enleados, por muito tempo, às vezes, até o fim. A realidade não traz serenidade, sossego, equilíbrio, mas tende somente a subtraí-las. E quem quer ter algum bem-estar precisa talhar a pedra dura com muito esforço e persistência anos a fio.
Então, há pessoas e pessoas, com qualidades e aptidões diferentes e aí está a beleza de tudo, cada um é como é, mesmo que não saiba, mesmo que não tenha consciência do que seja. Somos diferentes por natureza e rotulados por artificialidades. O desperdício está em querer nivelar, tirar o que cada um tem de sua característica mais própria, o que é mais seu, idiossincrático. O entendimento seria simples, se não fosse tão complexo colocar isso em prática. Da minha parte, tenho muito chão para trilhar ainda.
E não estou aqui querendo achar o melhor ou certo e errado, ou querendo sublimar a realidade, fantasiar ou romanceá-la, porque ela pode ser fria, dura, indiferente, cruel, e, também, uma construção permanente de significados. Certo é que nada, absolutamente, nada, é fácil, em terras brasilienses. É possível afirmar sem erro que há uma estrutura aí fora que mais cria empecilhos do que meios de se realizar a vida.
É o que há, por ora, e pelo jeito vai continuar assim, porque o Brasil, a sua estrutura econômica e política, se acomodou em ser periférica e residual, não estar na linha de frente, ela atende a uns poucos com maestria, requinte, e o que há de melhor, e submete todo o restante a escassez. Era aqui que eu ia começar o artigo e, literalmente, me desviei do rumo. Era isso que eu ia dissertar desde o começo, mas, às vezes, é assim e ponto.
A questão é que, como qualquer cidadão, bem, talvez, não qualquer, enfim, a coisa deveria andar mais e, no entanto, só se movimenta com muito custo e excessivo desgaste humano, não para todos é óbvio, mas o meu ponto de vista aqui é a maioria, na qual me encaixo. Este país é uma ode ao desperdício e à desvalorização humana.
Mas a vida é isso aí, uma barafunda de situações, mixórdia de sentimentos, numa multiplicidade de realidades, que não dá trégua pra ninguém, ainda mais a brasileira. A luta é diária, interna e externa, no íntimo ou nas ruas, é constante e vai continuar sendo pra todos. Poucos conseguem navegar em águas calmas, com segurança e tudo à mão. Eu com certeza não estou entre eles.