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Opinião

O inconsciente que nos domina

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Everton Ruschel
Por Everton Ruschel
Foto Arquivo pessoal

Acreditamos ser donos das nossas vontades, senhores das escolhas que fazemos todos os dias, do café que tomamos ao caminho que escolhemos para voltar para casa. Mas, por trás dessas decisões, existe um território silencioso: o inconsciente. Ele aparece em gestos, molda sonhos e até sabota planos sem pedir licença. É quem ativa lembranças esquecidas, provoca medos e influencia simpatias instantâneas. No teatro da mente, o inconsciente é o autor oculto, que escreve falas enquanto acreditamos improvisar.


Sigmund Freud dizia que não somos senhores em nossa própria casa. Dentro de nós habita um estranho familiar, que conhece nossos desejos mais íntimos, nossos conflitos e medos mais antigos, que não responde à lógica. A razão pode tentar comandar, mas o inconsciente costuma ditar o rumo com mais frequência do que imaginamos. Quantas vezes somos tomados por uma emoção que parece vir de outro tempo? É como se carregássemos dentro de nós um roteiro invisível, que dita cenas mesmo quando achamos que estamos improvisando.


Os sonhos talvez sejam o canal mais direto com esse mundo oculto. Carregados de símbolos, trazem imagens estranhas à primeira vista, quedas, corredores sem fim e rostos que nunca vimos. Mas, sob a superfície, revelam desejos reprimidos, angústias não elaboradas e histórias que continuam a ecoar dentro de nós. O que não cabe no dia, escapa à noite. Nossos sonhos falam em metáforas, e é preciso uma escuta mais sensível para entender o que eles sussurram.

Mas o inconsciente não atua apenas nas sombras. Ele está nas escolhas aparentemente intuitivas, na criatividade que surge sem esforço, no "algo me dizia" que guia nossos passos. É ele que reconhece padrões antes da razão, que pressente situações, que nos aproxima de pessoas sem que saibamos explicar o porquê. E, por vezes, também nos afasta de oportunidades, seja por medo, por defesa ou por traumas que nem sabíamos carregar. Até o silêncio que escolhemos diante de certas situações pode ter sido ensaiado por ele.


Carl Jung, ampliando a teoria freudiana, falava do inconsciente coletivo: uma herança mental comum à humanidade, cheia de símbolos e mitos que se repetem em diferentes culturas. Isso explicaria por que certas histórias, como a do herói, da queda, da transformação, aparecem em tantos lugares diferentes. Há algo em nós que já vem antes de existirmos.


O inconsciente não é vilão, mas também não é um aliado previsível. É uma força viva, com suas próprias lógicas e intenções. Ignorá-lo é viver à mercê dele. O verdadeiro desafio talvez seja reconhecê-lo, escutá-lo e integrá-lo à consciência. Não para dominá-lo por completo, mas para deixar de ser dominado em silêncio.


A liberdade começa quando deixamos de fingir que controlamos tudo. Quando aceitamos que há zonas obscuras em nós, abrimos espaço para uma vida mais lúcida, mais honesta. Entender o inconsciente que nos domina pode ser o primeiro passo para, enfim, viver com mais consciência de si.

 

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