Puxei a cadeira para assistir à esperada pelada de futebol aqui na praia (tem todo veraneio), prestigiando a patota.
Coisa simples: areia fofa, sol generoso, vários vizinhos e amigos em volta e um espetáculo à parte dentro de campo.
Batizamos a categoria de “sub-óbito”. Não por desrespeito, é só critério etário mesmo.
A escalação já entrega tudo:
Irineu no ataque (aquele que foi, mas às vezes não vai),
Valdir e Oscar nas laterais (apenas no papel, porque a subida é por decreto),
Nelson e Nestor na zaga (dupla que joga mais por leitura labial do que por velocidade),
Seu Antônio no meio (organizando o jogo com a cabeça, porque o corpo já pediu aposentadoria) e Valdomiro no gol (que não pula, interpreta a bola).
Pelos nomes, você já imagina: a faixa etária é da época da inauguração do Sol. Média de 75 anos, com variação conforme a pressão arterial do dia. “Somos os últimos desta geração de nomes, nem há mais registro desse tipo no cartório”, disse-me Hildebrando no banco, aquecendo o joelho inflamado que estalava a cada flexão.
Dizer que estavam “burros” seria injusto. A experiência está toda lá, intacta, cristalina.
O problema é que a mente manda e a perna responde com aviso prévio.
Ainda assim, são profundamente respeitados.
Porque ali não tem correria, tem posicionamento.
Não tem pique, tem antecipação histórica.
E não tem marcação cerrada, tem memória afetiva do adversário.
E o mais bonito: a vitória (4 x 3, todos os quatro do Irineu) sobre o adversário (que também é jovem há bastante tempo), um time “forte” (Câimbra Futebol Clube), deixou uma lição clara para todos nós: entrosamento é tudo. Mais do que juventude, mais do que força, mais do que joelho saudável.
No fim, ninguém saiu ileso: uns com areia na cara, outros com dor no ciático, mas todos com a dignidade intacta e a certeza de que, enquanto der para caminhar até a bola, o jogo continua.
(PS: Importante: a vitória valeu um barril de chope na aposta; o espetinho ficou por conta da Dona Valquíria, madrinha do campeonato).