Falamos que não importa o tempo que passe, nossos filhos serão sempre os nossos bebês. E, por mais independência que os incentivemos a ter, por mais que queiramos vê-los fortes e preparados para o mundo, sempre tentamos poupá-los de algumas coisas e protegê-los de outras. Quando temos mais de um filho e conhecemos profundamente cada um deles, seguimos esse instinto quase automático de distribuir pesos e responsabilidades conforme acreditamos que cada um será capaz de suportar. Acertamos sempre? Claro que não. Mas quem ousa contrariar a sabedoria ou o coração de um pai ou de uma mãe?
A gente cresce, toma as rédeas da própria vida e, volta e meia, descobre que ainda é poupado de certas dores. Isso causa uma certa revolta, porque às vezes nos faz acreditar que talvez ainda não sejamos totalmente capazes de lidar com a vida ao nosso redor, o que me leva a pensar que vou precisar me policiar para não colocar Miguel nessa mesma bolha. Com o passar do tempo, porém, outra percepção tem tomado conta de mim, hoje, já sou mais velho do que meus pais eram quando eu nasci, o que significa que o tempo passou para eles também. Na correria do dia a dia talvez isso não fique tão evidente, mas, quando paro para pensar, é chocante.
Meus pais ainda são ativos, jovens para os padrões de cuidados, mas não tão jovens para se descuidarem. A idade do típico “idoso-aranha” e é aí que mora o perigo. Seguem ativos, cuidando da casa, dos netos, da vida, porém começam a demandar um pouco mais de cuidados e de companhia. A dificuldade do envelhecer é uma via de mão dupla, pois, ao mesmo tempo em que eles precisam aceitar que as limitações começam a chegar, nós também precisamos interiorizar que aquelas figuras fortes, incansáveis e invencíveis da nossa infância envelhecem e que a fragilidade, inevitavelmente, começa a aparecer.
Passamos por muitas dificuldades na vida adulta, e esse momento é uma delas, mesmo que finjamos que não. É duro perceber que a proteção vai mudando de direção, que aquela mão que segurava a sua quando você tinha medo de vomitar é a mesma mão que agora, um pouco trêmula, precisa de apoio para segurar algo, se apoiar em alguém ou simplesmente de uma forcinha para carregar uma sacola mais pesada.
Durante toda a nossa vida, até aqui, nossos pais foram o porto seguro para qualquer problema. Foram nossos heróis, com superpoderes para solucionar qualquer coisa. A simples presença deles parecia suficiente para colocar o mundo de volta no eixo. Até que, sem aviso, nos vemos ocupando o lugar que antes era deles e, não na vida dos nossos filhos, mas na vida deles mesmos, dos nossos pais.
Esse momento traz um luto. O deles e o nosso. Cada um pelo que se perde. O deles, por saber que a juventude ficou para trás e que, cada vez mais, coisas e pessoas ficam pelo caminho. O tempo torna-se cada vez mais precioso e preciso. O nosso, por perceber que eles não são aqueles seres míticos, de força inigualável e imortais que um dia imaginamos na infância. Eles não deixam de ser nossos pais, apenas nos mostram que são de carne e osso e que seu tempo é finito. É como se, junto com os cabelos brancos ou com a falta deles, com as consultas médicas mais frequentes e com a memória falhando mais do que o normal, viesse também o atestado de que nós chegamos à vida adulta.
O futuro chegou para eles, que seguem ativos, mas convivendo cada vez mais com limitações, o que é de difícil compreensão, talvez até mais para eles do que para nós. Porém, com jeitinho, vamos entendendo juntos que o cuidado tem várias faces. Que é, sim, necessário assumir o controle em alguns momentos, mas sempre respeitando a autonomia, ouvindo os desejos e, acima de tudo, preservando a dignidade.
É urgente normalizar que quem cuida também precisa ser cuidado. Chega um momento em que a vida simplesmente inverte os lugares e, se um dia fomos nós atravessando a rua de mãos dadas com eles, hoje, sem perceber exatamente quando, somos nós que oferecemos o braço para que eles caminhem com mais segurança.