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Opinião

Minha vó Ângela

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Marina Oliveira
Por Marina Oliveira
Foto Marina Oliveira

Minha vó Ângela sempre foi a maior fã de tudo que já me propus a fazer. Nunca perdeu uma apresentação de ballet sequer, esteve em todos os concursos de poema e, inclusive, era quem ensaiava comigo as poesias. Nas formaturas do pré, do fundamental, também do ensino médio, lá estava ela, vibrando. Sempre fez parecer que as mínimas conquistas eram realmente grandes.

Quando saí da casa dos meus pais ela separou praticamente um enxoval para eu levar comigo, além de alguns livros, já que sempre foi a maior incentivadora desse hábito. Dizia que sempre soube que eu seria jornalista, isso ainda quando a recém havia passado em jornalismo, e “na federal ainda, só podia ser a minha neta”. Ela não pôde estudar, mas lutou como uma loba para que os filhos tivessem essa oportunidade, e conseguiu formar os seis. Repetia isso o tempo todo. Quase na mesma proporção, lembrava da história que, segundo ela, foi o que despertou essa certeza de que eu seguiria o caminho da comunicação.

Minha vó sempre foi politizada, diz que gente como a gente só começou a ser visto como gente por conta das políticas públicas. Viajamos para Brasília, visitar meu tio. Eu tinha um ano e minha memória não alcança essa época, mas ela nunca me deixou esquecer. Contava que, ao visitarmos a Praça do Três Poderes, me perdeu de vista em algum momento e, desesperada, saiu pelo pátio me procurando, até avistar a criança com corte penico sentada na mesa com o pessoal da imprensa, comendo a porção de batata frita dos jornalistas.

Ao se aproximar, ouviu o seguinte diálogo: “viu só, nunca seja jornalista, estamos aqui há muito tempo e essa é a nossa primeira refeição”. Minha vó repetia que, ali, naquele momento, ela soube que eu seria jornalista.

Durante a infância, líamos o impresso juntas, foi ela quem me ensinou a “pegar gosto” pela coisa.

Ela é assim, acredita em mim como ninguém nunca foi capaz de acreditar, e eu nem dou motivo. Minha vó Ângela vê em mim um potencial praticamente inalcançável, papo de dominar o mundo ou coisa do tipo.

Recentemente ela passou por questões graves de saúde e, da noite para o dia, já não repete mais nada disso, porque tem enfrentado dificuldade para falar.

Noite dessas sonhei que a gente conversava. Acordei com a mesma sensação que me persegue há meses, de incapacidade. Só de pensar em perder a minha vó, me perco. Muito egoísmo da minha parte, eu sei. É que naquele olhar eu existo diferente, como quem não tem medo de ser tudo o que quiser.

Mesmo com a memória pregando peças, eu ainda moro nos olhos da minha vó Ângela. A gente se enxerga. Meu vô Murilo costumava dizer “cresça e apareça”, sempre que chegava a hora da despedida, já a minha vó Ângela sempre me viu grande. Mesmo com pouco menos de um metro e meio de envergadura, naquele olhar eu sou capaz de abraçar o mundo.

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