Eu sempre quis entender onde e quando ficou decidido que rosa é cor de menina e azul é cor de menino, bem como alguns brinquedos foram destinados a elas e outros a eles. Quem foi a criatura tão desocupada que resolveu transformar duas cores, meia dúzia de brinquedos e algumas profissões em identidade civil para metade da população?
Fico tentando imaginar uma cena na minha cabeça, um povo sem noção ao redor de uma mesa em algum lugar qualquer.
— Senhores, precisamos organizar a humanidade.
— Concordo. Alguma proposta séria?
— Que tal rosa para meninas e azul para meninos?
— Genial. E se alguém quiser usar a outra cor?
— Aí a gente julga, critica e cria traumas desnecessários por algumas gerações.
Acredito que tenha sido mais ou menos assim que surgiu uma das maiores bobagens que, ainda hoje, em 2026, insistimos em manter e proteger como se fosse patrimônio cultural da humanidade.
Tem gente se vangloriando do que faz com a inteligência artificial, consultando a máquina como se fosse psicóloga ou médica, cirurgias são feitas por robôs e a tecnologia de modo geral está cada vez mais avançada. E ainda assim, tem gente preocupada porque um menino brincou de boneca ou porque uma menina pediu um carrinho de presente. Enquanto uns puxam para frente, outros insistem em voltar dez casas. Impressionante.
De um lado, prateleiras com bonecas, utensílios de cozinha e coisas de casa, tudo em tons de rosa e roxo para meninas. Do outro, Lego, jogos, carros, pistas de corrida e tons de azul para meninos, como se o cérebro infantil viesse com um manual de fábrica especificando quais objetos cada criança pode tocar. Tenho pavor de entrar em uma loja, vir alguém atender e perguntar: “É para menino ou menina?”. Respondo: “É para CRIANÇA”.
Certamente vocês já viram pesquisas dizendo que mulheres têm menos noção espacial que os homens, e tem gente que compra isso como se fosse algo genético, imutável, uma questão exclusiva de gênero. Só que isso tem muito mais relação com essa palhaçada de brinquedos separados para meninas e meninos. Durante a infância inteira, a menina foi treinada para cuidar de bonecas e brincar de casinha, enquanto o irmão brincava de carrinho, montava e desmontava cidades e construções com peças de Lego. Enquanto elas aprendiam sobre cuidados, eles desenvolviam relações espaciais.
Durante anos, muitas meninas são afastadas de brinquedos que estimulam orientação espacial, construção e mecânica e depois, a consequência é apresentada como se fosse prova de uma inferioridade natural, como se fosse genética e não condicionamento. É basicamente a mesma coisa que proibir alguém de entrar em uma piscina e depois criticá-lo por não saber nadar.
Já os meninos vivem sob outra vigilância igualmente absurda. Não podem brincar de boneca, de casinha ou usar utensílios cor-de-rosa porque isso supostamente os tornará menos homens. Menos homens por quê? Porque aprender a cuidar, acolher, alimentar, proteger e desenvolver empatia virou ameaça à masculinidade?
Ainda bem que muitos homens já assumem funções de cuidado dentro de casa, participam ativamente da criação dos filhos, entendem que afeto não é doença contagiosa, nem reduz masculinidade. Mas principalmente, está passando isso adiante, o que vai se perpetuando às gerações futuras.
Se brincar de boneca realmente influenciasse orientação sexual, bastaria colocar um boneco do Batman no quarto de uma criança e resolveríamos décadas de debates sobre sexualidade. Felizmente ou infelizmente para os especialistas de WhatsApp, a realidade não funciona assim, orientação sexual não é transmitida por brinquedos, atividades ou cores. Aliás, uma dúvida, o que os guardiões da masculinidade acham dos jogadores de futebol entrando em campo com chuteiras cor-de-rosa? O que faremos? Declaramos todos gays por decreto? Cancelamos a Copa do Mundo? Fechamos a FIFA?
E por falar em futebol, esse suposto esporte de homem, é curioso notar que há jogadores gays usando chuteiras tradicionais e inúmeras mulheres heterossexuais praticando o esporte. Da mesma forma, existem mulheres lésbicas trabalhando com maquiagem e estética, assim como homens heterossexuais atuando nesses setores.
Felizmente, a vida real é um verdadeiro banho de água fria para quem gosta de encaixar pessoas em caixinhas. O ser humano é muito mais complexo do que essa divisão ridícula.
A questão é simples, uma menina que brinca de carrinho continua sendo uma menina; um menino que brinca de boneca continua sendo um menino; uma mulher que dirige caminhão continua sendo mulher; um homem que trabalha com maquiagem continua sendo homem; e uma chuteira rosa continua sendo apenas uma chuteira rosa.
E quem insiste em enxergar algo além disso talvez não esteja preocupado com as crianças, apenas tentando proteger preconceitos que já deveriam estar aposentados há muito tempo. E elas merecem muito mais liberdade do que a oferecida por essa divisão entre rosa e azul. Cores não têm sexo, brinquedos não têm orientação sexual e profissões não possuem identidade de gênero.