Nos 100 anos de Erechim, em 2018, escrevi esse artigo. Mas diante de nossas necessidades, republico o conteúdo, pois acredito ser extremamente atual, quando Erechim está discutindo um projeto de mobilidade urbana.
A solução dos deslocamentos de contingentes que habitam as regiões urbanas é um dos maiores desafios enfrentados por administradores e arquitetos, no estudo e planejamento das cidades. E este desafio cresce continuamente...!
“A cidade não foi feita para o automóvel”
Segundo o Arquiteto Dinamarquês Jan Gehl – estudioso, pesquisador e autoridade na ciência que estuda as cidades, sua operacionalidade e crescimento, “A cidade não foi feita para o automóvel”. O viver nas cidades implica em deslocar-se...
Isto é, moramos, compramos, trabalhamos, fazemos lazer e estudamos em diferentes locais. Buscamos serviços hospitalares e de saúde, noutros tantos.
Falta de planejamento
E, é claro, todos são distantes uns dos outros. Como o fazemos? Deslocando-nos através de ônibus e transporte individual - o automóvel. Em razão das deficiências do transporte coletivo (concepção, planejamento...), fazemo-lo, basicamente, usando o automóvel. O transporte coletivo, não beneficia a todos, contrariando a essência da sua criação. Não há um planejamento adequado para que isso aconteça. Assim, a responsabilidade recai sobre o transporte individual. O nosso pequeno veículo de quatro rodas, cuja escala não serve como solução. Problema agravado ainda, pela incentivada e massiva venda (marketing) de veículos, e a pressão da indústria automotiva.
Trânsito lento, exasperante e estressante
Ocupamos então, todos os espaços disponíveis nas cidades, com carros se deslocando e ou, estacionados. A estatística mostra- carregando o condutor e, eventualmente, um passageiro. A resultante é o atravancamento das vias de circulação, um trânsito cada vez mais caótico, lento, exasperante e estressante. Não há vias urbanas (nem soluções) capazes de suportar este quadro. Gastamos hoje, muito mais tempo do que seria necessário para irmos aos locais de interesse. Sem falar no desperdício de combustível e na poluição do ar.
Modais de transporte coletivo
Como o caos não interessa, nem beneficia a ninguém, a solução está em planejar e utilizar os sistemas de transporte urbano, com ênfase no coletivo. O nosso conhecido ônibus, o TRAM (versão moderna do bonde elétrico que se desloca sobre trilhos), o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), uma versão moderna do trem urbano, com capacidade de conduzir grandes contingentes populacionais. Por fim, o metrô, nas capitais e grandes e densas regiões urbanas. Além disso, é fundamental integrar o sistema de transporte individual, incentivando o uso das bicicletas, às soluções exigidas pela cidade para os deslocamentos de seus habitantes. E estimular para que as pessoas caminhem mais, meio saudável de viver os espaços urbanos, “conhecer” a cidade e praticar exercícios.
Planejamento, visão e atitude responsáveis
Planejamento, visão, atitudes responsáveis e determinação são as chaves que desenharão a solução para o problema que atinge todos os agrupamentos urbanos. Não nos esqueçamos de que, vivemos hoje um acelerado processo de migração das populações do interior, para os núcleos urbanos, aumentando o caos!
Utilização da ferrovia
Erechim, que foi servida por ferrovia regional, tem como utilizar a infraestrutura existente (e hoje abandonada), para criar um sistema de transporte de massa, na escala urbana. A linha hoje inutilizada, corta a cidade de Oeste a Leste, regiões com forte densidade habitacional (bairros populosos), que buscam o centro urbano para obter serviços. Este eixo, integrado ao sistema viário e a um transporte coletivo, pensado e desenhado, constituirá uma rede eficiente, interligando setores de serviços, educação, lazer, comércio e saúde, o terminal de transporte coletivo intermunicipal e interestadual.
Perspectivas de intenso crescimento
Nas regiões interurbanas, a Oeste e Leste, situam-se dois Campi de educação universitária... O Campus da UFFS – Universidade Federal da Fronteira Sul (Oeste em direção a Getúlio Vargas) e o Campus da URI- Universidade Regional Integrada (em direção Gaurama). O futuro, que se desenha muito promissor para as instituições, apresenta perspectiva de intenso crescimento, exigindo para breve, soluções de amplo espectro no deslocamento dos estudantes. Estes migram diuturnamente da cidade para os Campi... e vice-versa.
Dois polis se ligam pela extensão da via férrea
Hoje são servidos por transporte coletivo e massivamente, por automóveis particulares, o que intensifica o problema abordado no início deste texto. Neste projeto, os dois polos se ligam a cidade pela extensão da via férrea aos Campi (ramal) e ou, linha contínua de coletivos, unindo-os a uma estação vizinha, do sistema VLT.
Estações de embarque e desembarque ao longo da via
A linha férrea existe. Basta recuperá-la e desenvolver carros (vagões). Há tecnologia local, capaz de produzi-los. Criar estações de embarque e desembarque ao longo da via. Será aproveitada, integralmente, a antiga Estação Ferroviária, núcleo inicial da criação da cidade de Erechim (Paiol Grande). Esta será o polo integrador do sistema, com o transporte via ônibus, atingindo o restante da cidade. Um TRAM no eixo Norte-Sul (Av. Maurício Cardoso e Av. Sete de Setembro). Por que não?
Pontos de desenvolvimento urbano
As estações tornar-se-ão pontos de desenvolvimento urbano, e contribuirão para o adensamento da ocupação. A infraestrutura -linha férrea- é o mais caro dos itens... e nós a temos pronta. Outras cidades brasileiras já fazem uso de sistema semelhante, utilizando vias férreas existentes. A integração do sistema ferroviário ao transporte de massa urbano representa o salto que Erechim precisa para, aos 100 anos, transformar-se em solução e modelo de transporte urbano, no nível das melhores cidades – no mundo!
Email: arquitetoperuzzo@terra.com.br