Joana é dessas pessoas conhecidas por todos. Sempre agradável. Mesmo do alto de seus oitenta e tantos anos, conserva traços que, em outros tempos, certamente atraíram muitos olhares. Aproveitou a manhã para ir a uma agência bancária. Não quer sacar dinheiro, pedir empréstimo nem resolver um grande negócio. Quer apenas ser atendida. Quer apenas provar que continua existindo. Não quer que lhe cortem os proventos de sua aposentadoria.
Na porta, um totem luminoso pede que aproxime um QR Code. Ela não sabe onde mora esse código. Um atendente explica que será preciso validar o acesso pelo aplicativo. Ela procura os óculos, depois o celular, depois uma folha cuidadosamente dobrada, onde anotou, à mão, as senhas do banco, do e-mail, do aplicativo. Nenhuma funciona.
A tela informa: “Reconhecimento facial não realizado. ”
Ela sorri, constrangida. Como assim? O rosto é o mesmo que o marido beijou durante cinquenta anos. O mesmo que os filhos reconheceriam no meio de uma multidão. O mesmo que o tempo cobriu de rugas, sem apagar a ternura. Mas a máquina não a reconhece.
A cena parece pequena, mas revela um paradoxo enorme. Nunca foi tão fácil conversar com alguém do outro lado do planeta. Lá nas Arábias, como na história da lâmpada de Aladim. E, às vezes, nunca foi tão difícil falar com um ser humano do outro lado do balcão. A tecnologia trouxe inegáveis avanços. Facilita pagamentos, consultas, documentos, comunicação. Mas o Brasil envelhece enquanto o mundo se digitaliza numa velocidade que nem todos conseguem acompanhar. E, inadvertidamente, aumenta a distância entre gerações.
Para muitos idosos, baixar um aplicativo, criar uma senha, localizar um QR Code ou autorizar uma operação pode transformar uma tarefa banal numa pequena batalha. E não se trata apenas de dificuldade tecnológica. Trata-se de autonomia. Quando alguém precisa recorrer ao filho, ao neto ou até a um estranho para realizar uma operação bancária, marcar uma consulta ou acessar um benefício que é seu, uma parte de sua independência fica pelo caminho.
Há ainda o risco dos golpes. A complexidade dos sistemas, somada ao desconhecimento dos mecanismos de segurança, torna muitos idosos mais vulneráveis. Ruy Castro, jornalista da Folha, já chamou atenção para a “ditadura do smartphone”. Talvez a expressão traduza essa sensação incômoda — e até humilhante — de que o mundo foi reformado sem consultar aqueles que também ajudaram a construí-lo.
E então penso no título desta crônica — expressão usada por um entrevistado em um dos primeiros programas políticos desta temporada, ao se referir ao perigo da exclusão por faixa etária: juntar os unicórnios com os jurássicos.
Unicórnios são os símbolos da inovação, das startups, da tecnologia, do futuro. Jurássicos, ironicamente, somos nós quando o mundo decide que já não há lugar para quem não domina suas novas linguagens. O problema não está em avançar. Está em avançar deixando gente para trás.
Uma sociedade verdadeiramente moderna não é aquela que transforma tudo em aplicativo. É aquela que oferece tecnologia sem transformar a tecnologia em barreira. Que cria caminhos digitais sem fechar as portas humanas.
Uma máquina pode reconhecer um rosto. Mas uma sociedade humana precisa reconhecer uma história. Antes de qualquer senha, código ou algoritmo, existe uma pessoa. Uma pessoa que trabalhou, cuidou, construiu, envelheceu. Uma pessoa que não ficou ultrapassada porque o mundo mudou.
Joana continua ali. Talvez a tecnologia ainda não consiga reconhecê-la.
Nós, porém, precisamos.