Algumas flores ou plantas são conhecidas por sua beleza e associadas a questões do dia a dia. Algumas são mais lembradas e outras nem tanto. Uma delas, apesar de bonita e delicada, carrega em si um significado mitológico e que tem a sua essência até hoje. Afinal, é bonita, mas é tóxica. O narciso, tal qual alguns comportamentos narcisistas, tem as suas semelhanças.
De forma bem resumida, na mitologia grega, Narciso era tão fascinado pela própria imagem refletida que ficou preso à contemplação de si mesmo e esqueceu do resto do mundo. Essa história, como tantas outras, é mais um lembrete a respeito do excesso de vaidade e de tudo o que ela pode causar. Mas, infelizmente, isso não fica só na mitologia e nem na toxicidade de uma planta. O narcisismo é uma realidade que pode ser devastadora, mas, quando reconhecido, observado e cuidado, pode ser contido e, assim como uma flor bem cuidada, encontrar um modo de florescer sem deixar de embelezar o ambiente ao seu redor.
Existem muitos narcisos e, enquanto o problema do espelho fica apenas na questão física, o problema não é dos maiores. A questão começa a ficar séria e tomar outras proporções quando o espelho reflete para além do físico. É aquele espelho egocêntrico de quem tem a necessidade de estar certo o tempo inteiro, seja em uma discussão, na família, no casamento, nas amizades ou até mesmo nas relações profissionais. É o espelho de quem raramente encontra um erro em si mesmo, pois, mesmo diante de um espelho, é incapaz de olhar para o próprio umbigo, mas encontra inúmeros nos outros e tem uma facilidade quase maquiavélica de apontá-los, pois não o faz no intuito de ajudar o outro, mas de se sobressair.
Do lado do narciso, quando algo dá errado, há sempre uma explicação, do outro, apenas crucificação. Quando alguém se machuca, existe um culpado, que, claro, nunca é o “narciso dourado”. Consequentemente, quando uma relação entra em crise, a responsabilidade está sempre do outro lado. Até chegar o dia em que, Narciso morre sozinho, amargurado, mas sem admitir, é claro, apenas alimentando seu ego e sua vaidade diante do espelho.
Curiosamente, uma narrativa pode mudar dependendo de quem está ouvindo. Como assim? A mesma pessoa pode contar uma história, seja pela posição de vítima ou de herói, e os elementos dessa história vão mudando conforme se tornam convenientes, pois, para quem vive diante do próprio espelho, mais importante do que compreender o que aconteceu ou narrar os fatos reais é preservar a própria imagem. Talvez por isso o narcisismo não goste de parceiros, mas de plateia, afinal um parceiro pode discordar e apontar um erro, enquanto a plateia só aplaude. Quando as palmas cessam, os problemas começam, surgem as justificativas, as inversões, as acusações e as versões convenientes. Aquele que feriu passa a ser o ferido, aquele que controlou passa a ser o controlado o que atacou passa a ser a vítima do ataque e, quando necessário, até quem tentou estabelecer um limite pode acabar apresentado como cruel, ingrato ou egoísta. Essa habilidade é um tanto curiosa, mas talvez para a arte, digna de um Oscar, afinal sair de cena carregando o papel de vítima depois de ter escrito, dirigido e protagonizado o conflito é para poucos.
Devido a essa necessidade de preservar a própria imagem, muitas pessoas sentem dificuldade em se desculpar, ou melhor dizendo, em genuinamente se desculpar, porque o pedido de desculpas muitas vezes pode fazer parte dessa narrativa itinerante em prol da própria imagem. Se desculpar de forma verdadeira exige muito e pode ser, de certa forma, insuportável para quem construiu a própria identidade em torno da necessidade de estar sempre certo, sempre no controle, sempre um passo à frente.
O narciso, na ânsia de estar sempre certo, se recusa a dividir. No discurso, sim, na prática, não. Nem mesmo uma divisão de responsabilidade é possível, pois há sempre apontamentos. Ele quer ser sempre mais, o que mais faz, o que está certo, o que sofre mais, o que cansa mais, o que sacrifica mais. E tudo, como sempre, gira em torno do umbigo dele. Onde qualquer tipo de relação pode florescer de forma saudável nesse ambiente?
Se, para manejar a flor narciso, precisamos tomar cuidados, usar luvas e até máscara por se tratar de uma planta tóxica, por que, na relação com uma pessoa narcisista, parece que são sempre os outros que precisam se proteger? Não deveria ser o contrário? Por que é o outro quem precisa estabelecer barreiras e se proteger para não ser ferido, enquanto a pessoa narcisista é colocada no centro do cuidado, como se coubesse aos outros criar as condições para que ela possa florescer? Não seria também responsabilidade do próprio narciso reconhecer sua toxicidade e aprender a não ferir quem está ao seu redor?
Porque, afinal, que tipo de florescimento é esse que só acontece às custas do sofrimento de quem está por perto? Como pode existir uma relação saudável quando apenas um lado é chamado a se proteger, enquanto o outro não é chamado a se transformar? Florescer não deveria significar ferir quem está ao redor, mas sim, aprender a existir sem destruir o jardim onde se está.
Uma dificuldade emocional pode explicar um determinado comportamento, uma condição psicológica pode ajudar a compreender certas limitações, mas explicar não é o mesmo que justificar, muito menos absolver. Nada disso autoriza alguém a ferir o outro. A necessidade de justificar comportamentos por uma condição qualquer é apenas uma fuga para não olhar para si mesmo para além de um reflexo no espelho, onde ele só mostra o que quer.
Imagina só olhar para o próprio umbigo e perceber que também erra, que também tem problemas, que não é a perfeição em pessoa e que é preciso abandonar as bengalas e se tratar? A pergunta pode ser simples, mas é muito mais complexa e com mais camadas do que parece. Para o narciso, ela exige abandonar, por alguns minutos, o papel de dono da verdade para simplesmente enxergar a própria participação naquilo que está acontecendo. Claro que ninguém está livre de comportamentos egoístas, de vez ou outra ser injusto, arrogante e incapaz de reconhecer um erro, a diferença está na capacidade de perceber isso, de querer mudar e de tentar, de fato, mudar.
Reconhecer um defeito não diminui ninguém, o que diminui é obrigar todos ao redor a viverem sob o peso de um defeito que somente uma pessoa se recusa a enxergar. É aqui o ponto em que o espelho deixa de ser apenas um reflexo e passa a ser uma escolha. Das duas, uma, ou podemos continuar olhando para ele em busca da imagem que queremos preservar ou, finalmente, olhar para além dela e reconhecer aquilo que existe de verdade. O narciso pode continuar sendo uma flor bonita, delicada e até mesmo capaz de embelezar um ambiente, mas sua beleza não elimina a sua toxicidade e deve-se reconhecer suas limitações e sua capacidade de ferir e aprender a maneja-las. É perceber que uma relação não segue com uma plateia permanente, onde um fala, acusa e sempre tem razão, enquanto o outro apenas assiste, se adapta e se protege. Ninguém deveria precisar destruir o próprio jardim para que outra pessoa consiga continuar acreditando que é uma flor perfeita.