A praça da cidade é uma espécie de palco vivo, onde o tempo parece andar em um ritmo diferente. Por entre os bancos de cimento e a sombra generosa das árvores, desfilam tipos inesquecíveis. Entre eles, sobressai-se uma figura singular, conhecida de ponta a ponta e que traz na memória o nome de quase todo mundo. Com um sorriso largo e o dom do afeto desarmado, essa pessoa trata a todos com um carinho simples, daqueles que aquecem o dia de quem cruza seu caminho.
Numa dessas tardes amenas, ao caminhar devagar pela praça, ela avistou uma dupla bem acomodada no banco costumeiro. Dois conhecidos de longa data conversavam sem pressa, vendo a vida passar. Ao se aproximar, com a espontaneidade que lhe era própria, olhou para eles e soltou a pergunta em tom de surpresa carinhosa:
— Vocês dois ainda vivo?
Um deles se ajeitou no banco, franziu a testa e olhou firme.
Antes mesmo que qualquer mal-entendido se criasse, bem animado, e com a sabedoria tranquila dos simples e uma rapidez de raciocínio invejável, abriu um sorriso calmo e arrematou na mesma sintonia:
— Nós três graças a Deus!
A resposta veio como uma tacada certeira e bem-humorada. A senhora, na verdade, só queria expressar a surpresa e a saudade; fazia tempo que eles andavam sumido da circulação, sem dar o ar da graça pela cidade.
Mas a réplica deste humilde cidadão foi além da mera justificativa. Ao dizer "nós ainda vivo", ele não apenas confirmou a própria presença, mas incluiu a todos na mesma dádiva. Sim, estamos vivos, e isso por si só já é um motivo de celebração.
Essa rápida troca de palavras na praça remete a uma reflexão profunda sobre o nosso cotidiano. Vivemos imersos em uma rotina engolida pela pressa, amarrados a compromissos, prazos e responsabilidades que muitas vezes nos tiram a leveza. A gente corre tanto que se esquece do essencial. Pessoas humildes, como eles, nos ensinam que a inteligência mais bonita não vem dos que buscam o conhecimento, mas da capacidade de viver o presente com sabedoria e bom humor.
Elas não têm a neurose do relógio nem o peso da urgência. Sabem, no fundo da alma, que estamos todos aqui de passagem e que o maior compromisso da vida é, simplesmente, estar vivo para poder dar um bom dia, rever um amigo e sorrir.