Hoje vou oferecer aos leitores um artigo diferente. Um texto escrito para o português que se fala em Portugal. Foi publicado no jornal Fórum da Covilhã, onde também sou cronista. Assim devo fazer porque gostaria de falar sobre a política. A vontade que eu tinha era de publicar um artigo tipo “isentão”, desses que consegue desagradar a toda gente. No entanto, é deixar para depois…ora pois! Vamos ao texto, então!
Na natureza
Começo o meu texto com uma pergunta ao leitor: quem tira o pó dos parques e das praças? Porque é verdade, sempre que vou a um local aberto, em contacto com a natureza, nunca encontro pó, senão nas folhas das plantas que estão à beira das estradas não alcatroadas. Estradas estas que foram abertas pelos homens, para que nelas pudessem passar os transportes que facilitam as complicações que criamos para as nossas vidas modernas. Se não passasse ninguém, nem pó haveria.
Walden
Não me tinha apercebido disso (do pó na natureza) até ler a obra de Henry Thoreau - Walden ou a vida nos bosques - publicada em 1854. Nela, o filósofo transcendentalista relata a experiência que teve quando decidiu viver por pouco mais de dois anos em isolamento, numa cabana construída por ele mesmo, às margens do Lago Walden (Massachusetts – Estados Unidos). Impensável para a época e tão atual para o momento presente, parece ter sido escrito por um desses sujeitos que ousam romper o establishment da vida moderna e mudam-se para um sítio isolado da cidade.
Filosofia
O livro é um relato que envolve desde os pormenores das dificuldades iniciais até os registos da sua produção agrícola. Acima disso, é um manifesto filosófico que preza pela importância da simplicidade voluntária, a autossuficiência e a comunhão profunda com a natureza. Embora escrito entre os anos de 1845 e 1847, período que coincide com o final da primeira fase da Revolução Industrial, a obra critica o consumismo e promove a contemplação e a busca pela espiritualidade através do convívio com a natureza.
Reflexões atemporais
Desta leitura, é interessante destacar um paradoxo: quanto mais isolado o sujeito fica, mais se torna falante e, quanto menos, mais quieto fica. Basta repararmos no barulho e no estilo de vida das grandes cidades. Com milhares e milhares de pessoas ao redor, os moradores de um apartamento, por exemplo, pouco falam com os vizinhos de porta, senão quando inevitável. Com raras exceções, desconhecemos completamente o que se passa da porta para dentro da casa dos nossos vizinhos. Por outro lado, quando andamos por uma freguesia em que há contacto com a natureza, como a Boidobra, os desconhecidos vizinhos costumam cumprimentar qualquer pessoa com quem cruzam no caminho. Já me aconteceu, por exemplo, de numa simples caminhada em frente à horta comunitária, um vizinho me oferecer hortaliças excedentes da sua plantação. Simples assim, Thoreau em 2026.
Aos veganos
Há uma outra passagem interessante, que faz menção ao consumo de carne. O sujeito que vivia há 180 anos, precisa aprender a caçar para ter como sobreviver. Aos jovens, era fundamental aprender a manejar uma arma, sem que para tal, o sujeito precisasse subverter a função da mesma. Servia para matar, sim, como uma ferramenta que facilitava o acesso às proteínas. No entanto, Thoreau diz que se as pessoas (naquele tempo) soubessem todo o lixo e o trabalho que se tem para matar um animal, limpá-lo e então consumi-lo, que a humanidade acabaria por refletir se não haveria outras formas de se alimentar, que não à base de animais criados com este fim.
Para encerrar
De tempos em tempos precisamos tirar o pó dos nossos olhos. Rever as nossas rotinas, o nosso estilo de vida equivocado, a tendência natural que temos de aceitar as «facilidades» que a vida moderna nos oferece e que, na verdade, nos aprisionam. E o leitor, como se vê diante dessas rotinas? Estaria disposto a passar dois anos na natureza para tentar chegar a essas conclusões ou prefere tudo como está, sem sair da tal zona de conforto? Não seria isso uma ilusão, como tantas outras que nos distraem e enganam o tempo todo?