Minhas filhas fizeram balé desde muito pequenas.
E, claro, pai de bailarina precisa participar, pelo menos nas apresentações de final de ano.
No pacote, veio também a música clássica.
Confesso que não entendo nada do assunto, mas até hoje me pergunto: como Antônio Vivaldi conseguiu criar As Quatro Estações? De onde surge tanta genialidade?
O sujeito conseguiu transformar primavera, verão, outono e inverno em música, e, se você escuta atentamente, entende os violinos trazendo cada detalhe.
Eu, que não tenho a genialidade de Vivaldi, descobri que consigo experimentar as quatro estações sem sair do escritório.
Basta marcar quatro reuniões com clientes no mesmo dia.
Primeira reunião: verão
O cliente entra na sala, bufando.
Metas atrasadas, vendas derretendo, equipe que não reage e concorrentes roubando share.
— “Precisamos vender mais, para ontem! Depois a gente vê como fica a margem.”
É o verão de Vivaldi em versão do comercial: violinos acelerados, suor escorrendo e todo mundo querendo ligar o ventilador (no duplo sentido).
Segunda reunião: inverno
Outro cliente. Mesmo mercado, outra vibe.
O caixa apertado, os juros continuam pesando e qualquer investimento parece sugerir uma expedição ao freezer.
— “A ideia é excelente, Clóvis. Vamos deixar para o próximo trimestre.”
Tradução: a ideia está aprovada no departamento das intenções e congelada no departamento financeiro.
Terceira reunião: primavera
Nesta, tudo floresce. O cliente está animado, a equipe tem energia, oportunidades surgem e o planejamento parece ter sido escrito por um poeta apaixonado.
— “Agora vai! Estamos alinhados e prontos para crescer!”
É lindo de ver. Quase dá vontade de colocar a foto da reunião no Instagram e o diálogo como música de fundo.
Só falta descobrir quem vai regar as flores quando a competição voltar a cobrar resultados.
Quarta reunião: outono
As folhas caem, as ações perdem o viço e os projetos iniciados com entusiasmo começam a sumir no horizonte.
A culpa, naturalmente, é do mercado, da economia, dos juros, da concorrência, do câmbio, das eleições, da seca, da chuva, da equipe e, se necessário, da geopolítica no Oriente Médio.
— “O planejamento estava certo, Clóvis. O problema é que aconteceu muita coisa que não estava prevista.”
Claro! O planejamento estava perfeito. Só esqueceram de combinar com a realidade e ajustar as velas, claro.
Tive um “Dia Vivaldi”.
Certamente, a genialidade de consultor não está em impedir as estações de mudarem, mas em perceber que cada uma exige um ritmo diferente.
Na governança também é assim: há clientes que precisam acelerar, outros precisam preservar caixa, alguns precisam florescer e muitos precisam parar de explicar por que as folhas caíram.
O desafio de quem aconselha empresas não é tocar a mesma música para todos.
É entender a estação de cada negócio e ajudar cada cliente a encontrar o próximo movimento, como no balé.