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Opinião

Carta ao Pai

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

 

Pai, eu não sei bem onde o senhor está, mas sei que deve estar bem.

Aliás, avisei alguns amigos nossos, que quando baterem com os costados por aí, será fácil lhe encontrar: basta atentar de onde vem o ruído de marcenaria e o cheirinho de churrasco de vazio na brasa. Se tiver bornal, cantil, cartucheiras, penduricos para perdizes, espingarda e o velho violão do avô na porta, além de valsas tocando nos intervalos entre os zunidos da serra elétrica e marteladas, não tem erro:  esse, definitivamente, é o endereço de sua paragem no céu.

Certamente um local simples, de paz e aconchego: extensão da nossa casa e da sua doce existência terrena.

Lhe escrevo para dizer que as coisas andam complicadas. Explico: um tal Coronavírus tem causado um estrago danado mundo a fora. Há mais de meio ano o bicho espalha medo e morte sem sinais de arrefecer.  É tipo uma gripe, não poupa ninguém; quando complica, acaba por mandar muita gente de mudança para as suas vizinhanças.

O senhor há de entender, mesmo sentindo muita falta das pessoas queridas que já se foram, a gente tenta encompridar ao máximo a temporada vital. Assim, essa pandemia tem nos deixado apreensivos e terrivelmente assustados.

Eu, por exemplo, tenho minhas filhas e a missão de encaminhá-las e protegê-las pelo resto de suas vidas - como o senhor tão bem fez comigo.

Além disso há a família e os amigos, que devem ser cultivados com dedicação, amor e carinho. Aprendemos bem a importância dessa verdade; o maior legado que nos deixou.

Tirando sustos eventuais e os já citados medos atuais, graças a Deus, estamos todos bem, dos filhos à bisneta, passando por noras, genros e adjacências. A mãe está ótima, bem de humor e saúde, embora saudosa. Porém, segundo ela, sem a mínima pressa para arrumar as malas ou partir. Por via das dúvidas deixa um baralho novo meio a mão, para evitar correrias de última hora.

Sigo arranjando sarna para me coçar – como o senhor, de forma compreensiva e carinhosa, seguidamente alerta. Infelizmente não herdei a vocação musical e tampouco a isenção da concórdia.

Porém, mesmo nos momentos mais complicados - físicos, emocionais ou negociais -, conto com os sábios e infalíveis conselhos que me surgem do nada. Ouço sua voz limpa, tranquila e pausada dizer: Vai com calma filhote. Devagar com o andor que santo é de barro. No fim tudo se ajeita, dá certo.

E não é que dá certo mesmo!

Por essas e outras agradeço por me orientar e resguardar por toda vida - desde o meu nascimento até agora-, embora eu ainda dê muito trabalho no tempo que se alonga.

No entanto, é certo que dia desses a gente vai se reencontrar e matar a saudade para sempre. Irei voando para os seus braços fortes receber o amparo reconfortante que só eles conseguem passar. Mas por enquanto, persisto a seguir seus ensinamentos: Nada de pressa, nada de pressa. Cada coisa tem sua hora...

Enfim, Feliz Dia dos Pais, meu velho! Um beijo grande em seu imenso e terno coração.

Assina: O filho amado.

 

Médico e membro da Academia Erechinense de Letras

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