21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Opinião

Purito

teste
Clovis_Lumertz.jpeg
Por Clóvis Lumertz – Empresário

Tava aqui pensando, solito, entre uma baforada e outra, nas tantas epifanias, sacadas, insights, links que surgiram da mão de quem segura um “puro”.

Não que isto seja obrigatório para ideias geniais, ou algo sobrenatural, ou ainda essencial às grandes descobertas, mas, se com ácido nos anos 70 muitas melodias foram inspiradas, talvez algumas boas obras tenham surgido ao ver a cinza evoluir entre os dedos, naquele instante suspenso em que o tempo parece obedecer a outro ritmo, mais lento, mais cúmplice do pensamento.

O charuto, no fim das contas, nunca foi a causa. Apenas foi cenário, um figurante silencioso, um relógio de fumaça marcando pausas.

Particularmente, mesmo sem ser um aficionado (3 ou 4 no ano me bastam, mas sempre com toda aquela coisa de um scotch, luz indireta e calma programada), penso que Churchill não venceu o nazismo por causa de um Romeo y Julieta, mas é difícil dissociar seus discursos inflamados daquela silhueta com charuto na boca, como se dissesse ao mundo que algumas batalhas exigem constância, não pressa.

Freud não “inventou o inconsciente” porque fumava, mas talvez aquelas longas sessões de análise tenham sido embaladas pelo ritual (obsessivo, dizem) de acender, tragar, apagar, como quem desce camada por camada da psique humana.

Dizem também que, com humor afiado e olhar cínico sobre a natureza humana, se pode escrever melhor. E, cercado por fumaça e ironia (ambas vivem no mesmo lugar), fica melhor ainda. Vá saber.

Fidel, personagem mais do que literário, transformou o charuto em símbolo político, marketing revolucionário e extensão do ego (li que aqueles modelos longos foram resposta ao médico que lhe recomendou fumar apenas um por dia).

Penso, cá comigo, que o fator em comum não seja a nicotina, mas o rito.

O gesto repetido. A pausa obrigatória. A licença para pensar sem produzir imediatamente, para olhar a cinza cair e aceitar que algumas ideias também precisam queimar devagar antes de se tornarem algo útil. Entre uma baforada e outra, sim, muitas decisões foram abortadas.

No fundo, grandes ideias não nascem da fumaça, mas do silêncio que ela cria ao redor.

O charuto só ocupa as mãos enquanto a mente vagueia, conecta, erra, volta, às vezes insiste.

E quando a cinza finalmente cai, às vezes sobra apenas um pensamento simples, noutras vezes um discurso histórico, um personagem, uma teoria que muda o mundo.

Mas, como toda mania de granfino, ou mesmo no simples palheiro entre dedos amarelos de um matuto, talvez seja só o resto da gente com fumacê.

 

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas

;