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Opinião

Últimas vezes

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Normalmente damos voz e vez às primeiras vezes e não sei bem o porquê, talvez porque a primeira vez tenha gosto de novidade, traga aquele friozinho bom na barriga e uma sensação ímpar de conquista. Porém, quase nunca falamos das últimas vezes, creio que seja justamente por trazerem sensações contrárias, um certo peso, gosto de despedida e, diferente das primeiras, raramente avisam que estão chegando, assim, quando percebemos, já passaram ou passaram e nem percebemos.

Tanto as primeiras quanto as últimas vezes se tornaram mais evidentes quando adentrei o mundo mágico da paternidade. Evidentes, sim, mas, ainda assim, nada nos prepara para as últimas vezes que vivemos com nossos filhos. Aprendi, da forma mais dura, que toda primeira vez carrega em si a possibilidade de uma última e, algumas vêm cedo demais.

Meu primeiro Dia dos Pais foi com meus dois filhos ainda no ventre da mãe, e foi um dia incrível, parecia que a felicidade tinha gosto, era quase palpável. Eu não poderia imaginar que seria, ao mesmo tempo, o primeiro e o último com os dois. No ano seguinte, o que deveria ser o meu “primeiro” Dia dos Pais com meus dois braços preenchidos, ficou faltando uma metade, e esse vazio me ensinou e, ainda me ensina, coisas que ninguém nos ensina antes.

Naquele mesmo ano, passei o Natal com meus meninos ainda na barriga da mãe, mas, no dia seguinte, descobri que também tinha sido o último Natal com os dois. No ano seguinte, o “primeiro” Natal me fez entender que, às vezes, os braços pesam mais pelo que já não podemos carregar do que pelo que está em nossas mãos.

Ninguém me preparou para a última respiração, para a última batida de coração, para o último chute na barriga. Eu vivi cada uma delas sem saber que eram as últimas e talvez essa seja a parte mais difícil, pois raramente sabemos quando será a última vez. Ainda bem, porque, quando sabemos, o tempo passa e pesa diferente. Houve um único momento em que tive certeza de que era a última vez, que foi quando o peguei no colo. Era a primeira vez, mas eu sabia que também seria a última. Tentei postergar esse momento ao máximo, mas ele chegou, e até hoje não sei descrever a sensação.

Desde então, evito, mesmo sabendo que faz parte, pensar nas últimas vezes. Há quatro anos dou colo sem nem cogitar a possibilidade de ser o último. Não importa o tamanho do cansaço, da dor ou a quantidade de coisas nas mãos, eu dou um jeitinho e tem colo. Quem sabe quando ele não vai mais querer? Vou aproveitar ao máximo esse privilégio.

Dizem que um bebê é recém-nascido só até os 28 dias, isso quer dizer que, já no dia 16 de fevereiro, dei o último colo como pai de um recém-nascido. A última mamadeira daquela fase, o último banho, a última fralda, a última roupa e brinquei pela última vez com o meu RN sem nem me dar conta. O tempo foi passando, e elas seguem acontecendo, quase de mãos dadas, as primeiras e as últimas vezes. A cada conquista deles, uma despedida nossa e a cada última vez, uma nova conquista. Teve a última engatinhada, a última vez que mamou no peito, a última reação por causa da APLV, a última queda boba enquanto aprendia a andar e tantas outras últimas vezes que só reconheci depois que já tinham virado lembrança.

Outro dia, em uma reunião de um seleto grupo de pais (Canal S.E.R. PAI) que de fato participam da vida de seus filhos e tentam, a cada dia, ser pais e homens melhores, falávamos um pouco sobre isso, o medo do temido “último colo”. Naquele momento, eu estava com a mamadeira na mão e me peguei pensando quando seria a última e, o coração apertou de um jeito estranho, então me lembrei de ter sentido algo parecido quando começou o desfralde. A gente torce e comemora cada avanço, mas, lá no fundo, dá um pequeno curto-circuito, afinal é uma mistura de orgulho pelo crescimento e de medo de perder aquele bebezinho para sempre.

É contraditório, eu sei. Passamos anos ensinando a andar, falar, comer sozinho, ir ao banheiro, tomar banho, ler, escrever e queremos que aprendam rápido, que sejam autônomos e, quando conseguem, pensamos: “Mas já? Tem certeza de que não quer ajuda?”. Comemoramos cada conquista, cada passo, cada pedalada sem cair, cada “consegui sozinho, pai!”. Um dia empurramos o carrinho, no outro, a motoca, depois, andamos de mãos dadas pelas ruas e mais adiante, corremos atrás da bicicleta com medo de que caiam, até que chega o dia em que saem sozinhos, ou com os amigos e, a gente fica apenas olhando de longe. Um dia fazemos aviãozinho para dar comida, no outro, eles mesmos montam o prato. Hoje pedem para dormir junto depois de uma história, amanhã escolhem o próprio livro e fecham a porta do quarto.

Cada conquista me enche de orgulho, mas o coração fica apertado, confesso. Ainda assim, creio que isso aconteça porque, de alguma forma, sei que estou no caminho certo, meu filho está crescendo independente e saudável. A verdade é que estamos criando filhos para o mundo, não para nós. Sabemos disso, mas ninguém nos prepara emocionalmente para viver essa entrega.

Além do mais, enquanto para nós algumas etapas têm gosto de despedida, para eles tudo é começo e é assim que deve ser. Aos poucos, começamos a “sobrar” e, talvez por isso, seja tão importante não nos abandonarmos no meio da paternidade. Quando nossa vida também tem sentido, projetos e identidade, nossos filhos não apenas nos olham com orgulho e sabem que nos dedicamos integralmente a eles, mas também percebem que somos felizes e, isso se reflete neles. Assim, as últimas vezes até doem, mas não nos desmontam, pois temos outros propósitos e isso os deixa mais livres para viver e crescer, e a nós, para aproveitá-los em cada fase. Afinal, pode ter sido a última mamadeira, mas amanhã será a primeira caneca de café juntos. Pode ter sido o último colo, mas amanhã será aquela conversa, sentados lado a lado, refletindo sobre a vida.

Nosso papel não é prender, é ensinar a voar, sabendo quem eles são, por isso, além de deixar claro para eles quem você é, diga sempre que seus filhos são capazes, inteligentes e fortes. Porque, um dia, eles estarão longe, talvez inseguros, e vão se lembrar das palavras que ouviram e do exemplo que tiveram dentro de casa e é isso que sustenta quando o mundo aperta.

Aproveitem de verdade cada segundo, as primeiras e as últimas vezes, pois nunca saberemos quando será o último banho, a última fralda, a última mamadeira, a última palavra trocada, a última história antes de dormir e o temido último colo. Mas uma coisa é certa, não importa o tamanho que tenham, de algum jeito, sempre vão caber no nosso colo. E eles sabem disso.

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