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Opinião

Poesia em campo aberto

Terra (Parte 1) - Para Vitor Ramil

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Natan Fantin
Por Natan Fantin - Professor do Ensino Básico e Escritor; E-mail para contato: natanfantin@gmail.com
Foto Natan Fantin

Existe uma destruição que o satélite não vê.

Não a do desmatamento, embora machuque.

Não a da erosão, embora o arroio carregue

toneladas de terra que chegam ao mar como pó.

A destruição que carrego é mais antiga.

É a do pertencimento.

Quando uma família abandona a Querência no Alto Uruguai;

e quantas abandonaram o pago, não vai embora a família apenas.

Vai o nome que tinham

para aquela pedra no meio do campo de neblina.

Para aquela curva do terreno, perto do pé de bergamota no potreiro,

onde o vento chegava diferente em julho.

Para aquele canto do açude onde os marrecos pousavam

nos fins de tarde de março.

Vai um vocabulário inteiro.

Uma biblioteca sem livros escritos.

Uma forma de conhecer que não cabe em tela

porque não foi feita de palavras…

foi feita de anos no rancho.

De anos no mesmo pampa.

De mortes que viraram fertilidade.

De estações sobre o mesmo pôr do sol.

Thoreau ficou dois anos à beira de um lago

e saiu de lá com um lugar dentro de si.

Com a convicção de que conhecer um lugar de verdade

é a forma mais responsável de habitar o mundo.

No pampa do norte há quem tenha feito isso

sem saber o nome de Thoreau.

Fizeram porque ficaram.

Porque prestaram atenção.

Porque acumularam o saber que só se deposita por sedimentação,

vida sobre vida, morte sobre morte

que vira terra fértil de histórias.

O senhor que já passou dos setenta na propriedade de encosta do rio Uruguai

sabe onde a água baixa primeiro depois da chuva.

Em qual canto do açude o peixe descansa no calor.

Que aquela vaca no arame do lado norte anuncia o tempo fechando.

Esse saber não tem nome científico.

Não cabe em currículo. Não rende certificado.

Mas quando esse homem morrer sem ter passado o saber adiante,

porque os filhos foram para a cidade e os netos cresceram

olhando para telas, algo se perdeu que nenhum programa recupera.

Nenhuma boa intenção da cidade.

Vai o laço entre o povo e o chão.

E sem esse laço a terra fica abandona,

à deriva de quem tiver dinheiro

e nenhuma obrigação de amar o lugar onde se foi parido.

Aí começa a doença. Não apenas a da terra,

o solo que empobrece, o arroio que seca.

A doença das pessoas também.

O vazio de quem não tem lugar pra chamar de comunidade.

A raiva sem endereço. A violência que nasce

não do excesso

mas da falta…

falta de chão, falta de pertencimento,

falta de um nome para dizer de onde vem.

Trago sozinho o verde do chimarrão.

Olho o cotidiano, sei que vão embora;

E o frio ajuda a ver isso.

O frio aprofunda. O frio concentra

o olhar que se dispersaria pela superfície alegre das coisas simples.

O frio faz o pensamento ir fundo,

encontrar a linha exata onde o campo encontra o horizonte,

perceber a forma que o nevoeiro toma num amanhecer de junho,

escutar o silêncio que antecede a geada.

Essa destruição,

a do pertencimento,

não aparece no PIB.  Não tem representação na Câmara.

Mas a terra lembra.

A terra sempre lembra.

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