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Opinião

Nem todo homem, mas deveria ser

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

No calendário, o dia 15 de julho consta como o Dia Nacional do Homem. Em princípio, uma data para lembrar dos cuidados com a saúde masculina, tema ainda envolto em preconceitos. Porém, acredito que, mesmo sendo pouco lembrada e, quando mencionada, muitas vezes em tom de ironia (não julgo), é uma data que precisa ser pensada para além da saúde masculina, mas também da saúde e segurança das mulheres.

É urgente refletir e agir nesse dia e durante o ano todo, ainda mais diante da triste realidade brasileira. Não é uma data a ser comemorada, pois há cada vez menos espaço para homenagens ou discursos vazios sobre masculinidade e mais urgência em olhar para comportamentos que continuam (re)produzindo violência, medo e morte.

O feminicídio cresce a olhos vistos no Rio Grande do Sul e em todo o país e enquanto homens se sentirem donos da vontade, do corpo, da liberdade e até da vida das mulheres, esses números só tendem a aumentar. Os feminicídios não são apenas estatísticas, são vidas interrompidas. E a violência não está apenas nas ruas, está principalmente dentro de casa, justamente onde deveria haver segurança.

Ninguém nasce violento. A violência é construída, alimentada, ensinada e, muitas vezes, tolerada. Durante séculos, ensinou-se aos homens que chorar era fraqueza, pedir ajuda era vergonha, resolver conflitos pelo diálogo era sinal de fragilidade e aceitar um "não" era quase uma ofensa pessoal. O feminicídio começa muito antes do crime. Começa nas piadas que normalizam a violência, no ciúme tratado como prova de afeto, na incapacidade de aceitar um "não" e na ideia de que demonstrar sentimentos diminui um homem.

É preciso leis mais rígidas, sim, mas para coibir esse tipo de violência não basta apenas a prisão do criminoso, é preciso começar muito antes, impedindo que os homens cheguem ao ponto de agredir e de matar. Um dos maiores desafios da masculinidade hoje talvez seja abandonar privilégios tratados durante muito tempo como naturais. Respeitar deveria ser o mínimo e controlar os próprios impulsos, uma obrigação. Ser homem deveria significar reconhecer limites, rever atitudes, admitir erros, conviver com as diferenças e compreender que ninguém pertence a ninguém.

Ter um Dia Nacional do Homem só faz sentido se servir para nos questionarmos a respeito de que tipo de homem nós somos e vou além, que tipo de homens que estamos criando. A mudança começa na infância, na forma como nós pais educamos nossos filhos, perpassa em como corrigimos nossos amigos e como deixamos de passar pano para comportamentos ainda ditos "coisa de homem". Sempre tem aquele que vai dizer para não generalizar, que "não é todo homem". É verdade, mas deveria ser sobre todos quando o assunto é responsabilidade. Quem não pratica violência também pode escolher não ser cúmplice do silêncio, da omissão e da conivência.

Nenhuma sociedade será verdadeiramente segura para as mulheres enquanto continuar ensinando homens que violência é linguagem, domínio é afeto e poder vale mais do que respeito. Mudar o mundo pode ser uma utopia, mas a mudança individual já é um grande passo. Se cada um refletir, reconhecer seus limites e rever seus comportamentos, será possível reduzir a violência de gênero e tornar a sociedade um lugar mais seguro para as mulheres e para todos. Se a cada 15 de julho conseguirmos dar um passo rumo ao fim da violência de gênero, a data já terá valido a pena.

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