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Opinião

A vida acontece no caminho

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Em algum momento você já se pegou pensando por que as viagens de volta parecem mais curtas do que as de ida? Ou melhor, por que parecem ser assim? De acordo com a ciência, a explicação é simples, o caminho de volta parece sempre mais curto porque já não carregamos o peso da expectativa da ida. Tem até um nome para isso, “efeito da viagem de volta”. Quando estamos indo para algum lugar, normalmente nossa atenção costuma ficar voltada ao tempo que falta, ao desconhecido e ao desejo de chegar. Mesmo não expressando, dentro da nossa cabeça parecemos crianças perguntando a todo momento se já chegamos. Na volta, o caminho é exatamente o mesmo, mas, curiosamente, a distância parece menor, simplesmente porque aquela ansiedade já ficou para trás.

Neste final de semana tivemos um evento importante, comemoramos os 75 anos de vida do meu pai no lugar em que ele mais gosta de estar, cercado pela família e pelos amigos. O caminho até lá é o mesmo que faço desde a infância, a estrada não se alongou nem diminuiu, mas sempre seguimos pensando em como tudo será e, nesses pensamentos, os quilômetros se multiplicam. Já na volta, tudo parece mais leve e mais rápido.

Desta vez, porém, tem algo que faz a estrada parecer mais longa. Logo adiante há uma curva importante no caminho e, por mais tranquila que pareça, assusta como tudo o que é desconhecido. De repente, esse trajeto ganhou alguns quilômetros a mais e algumas preocupações extras. O final de semana foi de festa e alegria, foi “coisa grande”, como ele gosta de dizer. E, mesmo diante dessa nova curva, segue observando a paisagem e vivendo o que existe pelo caminho. Sabedoria adquirida com os anos de experiência? Talvez. Quem sabe um dia eu chegue lá.

Enquanto ainda estava lá, entre a ida e a volta, observando as pessoas, as conversas, as risadas e apreciando a paisagem, me dei conta de como vivemos no piloto automático. Ficamos fechados nos caminhos que o GPS ou que outras pessoas nos apontam e acabamos não percebendo que pouco importam a ida, a volta, suas distâncias ou expectativas. Mesmo parecendo clichê, o que importa é cada passo da caminhada, porque é ali que a vida acontece. Não é antes, nem depois, é durante. Faltaram muitas pessoas. A vida tem dessas, nem sempre podemos estar todos juntos, mas, ainda assim, precisamos olhar para os lados e enxergar o que está presente, prestar atenção aos detalhes e sentir cada abraço para guardá-los nos lugares mais incríveis da memória, revisitando-os sempre que desejarmos.

Já me peguei muitas vezes imaginando que seria mais feliz quando a faculdade acabasse, quando tivesse minha casa, meus filhos ou quando escrevesse meu livro. Algumas dessas coisas aconteceram, outras ainda não, mas aprendi que a felicidade nunca esteve na próxima parada, mas durante o caminho. E são momentos como esses de comemorações ou de curvas inesperadas, que interrompem a distração e devolvem nossa atenção ao que realmente importa. Não porque o destino mudou ou porque erramos o caminho, mas porque precisamos mudar a forma como percorremos essa estrada. É preciso lembrar, com urgência, que a vida não acontece na chegada, mas em cada parte do caminho.

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